{"id":1596,"date":"2021-12-20T20:36:50","date_gmt":"2021-12-20T20:36:50","guid":{"rendered":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/?p=1596"},"modified":"2023-02-16T13:02:37","modified_gmt":"2023-02-16T13:02:37","slug":"sobre-a-terra-desolada-para-qual-panorama-devemos-olhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/sobre-a-terra-desolada-para-qual-panorama-devemos-olhar\/","title":{"rendered":"Sobre a terra desolada, para qual panorama devemos olhar?"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"has-text-align-right has-medium-font-size wp-block-heading\">Lilian Maus<sup>1<\/sup><\/h2>\n\n\n\n<p>Em nosso mundo p\u00f3s-pand\u00eamico, nessa terra desolada afetada pelo Covid-19 e adaptada \u00e0s telinhas de celulares, as plataformas digitais da Internet t\u00eam atuado como uma importante vitrine de exposi\u00e7\u00f5es virtuais e distribui\u00e7\u00e3o de textos cr\u00edticos de arte, onde, frequentemente, a imagem \u201cinstagram\u00e1vel\u201d do artista confunde-se com o seu trabalho art\u00edstico. Tendo em vista esse contexto, destaco aos leitores a atualidade da obra \u201cA sociedade do espet\u00e1culo\u201d, de Guy Debord, escritor franc\u00eas que refor\u00e7ava o papel alienante da imagem espetacular como modo de domina\u00e7\u00e3o capitalista. Hoje praticamente tudo pode ser documentado e rastreado pelos algoritmos na Internet, o que mant\u00e9m, cada vez mais, o usu\u00e1rio preso na rede de consumo exaustivo digital controlada pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es. O fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han, em \u201cSociedade do cansa\u00e7o\u201d, fala-nos da exaust\u00e3o mental provocada pelas mudan\u00e7as socioculturais e tecnol\u00f3gicas do s\u00e9c. XXI, tanto alicer\u00e7ada pela ideia de excel\u00eancia de desempenho, como pelo excesso de est\u00edmulos e de informa\u00e7\u00f5es. H\u00e1 muito sentimos que a pr\u00f3pria vida desmaterializou-se. As novas gera\u00e7\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o compreendem a si mesmo fora do \u00e2mbito de seus avatares digitais.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a desmaterializa\u00e7\u00e3o do objeto art\u00edstico foi um processo longo e historiografado pela norte-americana Lucy Lippard nos anos de 1960\/1970. &nbsp;Em sua cr\u00edtica, a autora refor\u00e7ava a ideia de que uma obra de arte n\u00e3o \u00e9 feita apenas de objetos, mas, tamb\u00e9m, de media\u00e7\u00f5es discursivas, nas quais o processo de cria\u00e7\u00e3o vem ganhando, desde ent\u00e3o, cada vez mais espa\u00e7o. Nesse sentido, a sistematiza\u00e7\u00e3o em arquivo dos documentos que circundam e\/ou constituem a obra propriamente dita vem sendo h\u00e1 d\u00e9cadas, cada vez mais, importantes para a sua legitima\u00e7\u00e3o. Tendo em vista a expans\u00e3o do potencial arquiv\u00edstico das plataformas digitais da Internet, empreitadas documentais e editorais v\u00eam ganhando um lugar not\u00f3rio. \u00c9 nesse contexto que o arquivo da <em>Panorama Cr\u00edtico<\/em> acaba de ser resgatado pelos seus editores Alexandre Nicolodi e Denis Nicola.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Jacques Derrida, em \u201cMal de arquivo: uma impress\u00e3o freudiana\u201d o arquivo, em sua etimologia, remonta-nos \u00e0 palavra grega \u201c<em>arkh\u00e9\u201d<\/em>, que condensaria um duplo significado: o de <em>come\u00e7o<\/em> e o de <em>comando<\/em>. Afinal, ao ampliar a cust\u00f3dia da mem\u00f3ria em revistas online de editoras independentes, tamb\u00e9m poder\u00edamos dizer que no fundo a <em>Panorama Cr\u00edtico<\/em> estaria questionando a quem cabe o poder de cust\u00f3dia da mem\u00f3ria da dimens\u00e3o cr\u00edtica da obra de arte. Todo arquivo hist\u00f3rico passa, como nos bem lembra Walter Benjamin, em \u201cSobre o conceito de hist\u00f3ria\u201d, por um processo de barb\u00e1rie. Decidir o que fica para a hist\u00f3ria ou mesmo o que \u00e9 visto aos milhares pelas massas na Internet nunca \u00e9 uma escolha neutra e objetiva. Os documentos s\u00e3o fruto de interpreta\u00e7\u00e3o, nunca s\u00e3o material bruto, objetivo e inocente. Cada vez mais os documentos s\u00e3o envoltos por algoritmos relacionados a fins econ\u00f4micos e pol\u00edticos. Da\u00ed mesmo vem a import\u00e2ncia de mantermos as editoras independentes, desatreladas \u00e0s finalidades imediatas do circuito e do mercado de arte, a fim de criar zonas aut\u00f4nomas para o exerc\u00edcio da cr\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 nos long\u00ednquos anos de 2010, em entrevista para Felipe Scovino, no livro Coletivos\/Cole\u00e7\u00e3o Circuito, quando eu ainda atuava como gestora do Atelier Subterr\u00e2nea, esse espa\u00e7o aut\u00f4nomo de arte que agitou o circuito de Porto Alegre entre os anos de 2006 e 2015, eu vinha a citar a <em>Panorama Cr\u00edtico <\/em>como uma das iniciativas independentes mais destacadas do Rio Grande do Sul cujo objetivo era expandir o espa\u00e7o da cr\u00edtica na \u00e9poca, levando o debate tamb\u00e9m para a Internet desde 2008. Essa editora e revista online gratuita foi desde sempre um investimento pessoal e uma empreitada independente de Alexandre Nicolodi e Denis Nicola. Por isso mesmo merece ainda mais destaque.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s 10 anos de deserto, com a paralisa\u00e7\u00e3o das atividades da editora entre os anos de 2011 e 2021, Denis e Alexandre decidem, corajosamente, voltar a atuar na constru\u00e7\u00e3o desse panorama, ainda que de uma montanha metaf\u00f3rica cheia de novos obst\u00e1culos e desafios. O relan\u00e7amento da editora \u00e9 sem d\u00favida um marco deste ano de 2021, que deve se desdobrar tamb\u00e9m em novas plataformas digitais. Deixo aqui meus votos de vida longa \u00e0 revista e \u00e0 editora pela qual publiquei diversos livros, dentre eles: \u201c<a href=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/livros\/atelier-subterranea\/\" data-type=\"page\" data-id=\"156\">Atelier Subterr\u00e2nea<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/livros\/vetor-subterranea-como-plataforma-de-resistencias\/\" data-type=\"page\" data-id=\"253\">Vetor<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/livros\/br116-circuitos-independentes-em-transito\/\" data-type=\"page\" data-id=\"257\">BR116<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/livros\/a-palavra-esta-com-elas-dialogos-sobre-a-insercao-da-mulher-nas-artes-visuais\/\" data-type=\"page\" data-id=\"261\">A palavra est\u00e1 com elas<\/a>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity\"\/>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Artista e professora do Instituto de Artes da UFRGS.<\/li>\n<\/ol>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<\/p>\n\n\n\n<p>BENJAMIN, Waltar. Sobre o conceito de hist\u00f3ria. In. ______. <strong>Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1993, pp.222-232<\/p>\n\n\n\n<p>DEBORD, Guy. <strong>A sociedade do espet\u00e1culo<\/strong>. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997<\/p>\n\n\n\n<p>DERRIDA, Jacques. <strong>Mal de arquivo<\/strong>: uma impress\u00e3o freudiana Rio de Janeiro: Relume Dumar\u00e1, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>HAN, Byung-Chul. <strong>Sociedade do Cansa\u00e7o<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora Vozes, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p>LIPPARD, Lucy. <strong>Six Years&nbsp;: The Desmaterialization of the Art Object from 1966 to 1972<\/strong>. Berkeley&nbsp;: University od California Press, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p>REZENDE, Renato&nbsp;; SCOVINO, Felipe. <strong>Coletivos<\/strong>. Rio de Janeiro: Circuito, Cole\u00e7\u00e3o Circuito, 2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Lilian Maus. 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Da\u00ed mesmo vem a import\u00e2ncia de mantermos as editoras independentes, desatreladas \u00e0s finalidades imediatas do circuito e do mercado de arte, a fim de criar zonas aut\u00f4nomas para o exerc\u00edcio da cr\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1708,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,36],"tags":[],"class_list":{"0":"post-1596","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-arte","8":"category-volume-02","10":"post-with-thumbnail","11":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1596","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1596"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1596\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3208,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1596\/revisions\/3208"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1708"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1596"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1596"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1596"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}