{"id":1752,"date":"2022-01-05T13:09:15","date_gmt":"2022-01-05T13:09:15","guid":{"rendered":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/?p=1752"},"modified":"2022-01-05T13:09:16","modified_gmt":"2022-01-05T13:09:16","slug":"a-acao-possivel-e-ser-humane-onde-estamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/a-acao-possivel-e-ser-humane-onde-estamos\/","title":{"rendered":"A a\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 ser humane onde estamos"},"content":{"rendered":"\n<p> <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-heading\">Andr\u00e9 D. Pares<sup>1<\/sup><br>(ou Palhares, como quer a Panorama)<\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 momentos que marcam o decl\u00ednio da humanidade. Quando o atual presidente do Brasil diz, entre salivas, que \u201cripou\u201d todo mundo do IPHAN, nesse fim do ano pand\u00eamico de 2021, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 (mais) um uso sem sentido da l\u00edngua portuguesa. A ignor\u00e2ncia orgulhosa propositada marca um ponto profundo de decad\u00eancia porque procura representar, num ato \u2013 aparentemente banal \u2013, toda destrui\u00e7\u00e3o pr\u00e9via impetrada por esse governo, n\u00e3o menos cheia de orgulho abjeto.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa suposta cereja do bolo \u2013 putrefato como a bolsonariedade \u2013 quer ter, pois, um componente m\u00f3rbido a mais. Se o IPHAN \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel pelo patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e art\u00edstico do pa\u00eds, a sanha assassina da mil\u00edcia instalada no poder precisa urgente chacinar qualquer sinal de humanidade que o Instituto preserve, como \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o para o qual foi criado h\u00e1 quase 80 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria at\u00e9 prov\u00e1vel \u2013 tal o script tacanho que rege a camarilha \u2013 que nem se tivesse achado \u201cazulejo\u201d algum e muito menos numa constru\u00e7\u00e3o do sr. senil cuja rede de lojas escoltadas por est\u00e1tuas <em>feiques <\/em>\u00e9 devedora de milh\u00f5es aos cofres p\u00fablicos. N\u00e3o fosse a esgar\u00e7ada garantia de democracia que assegurou a presen\u00e7a do IPHAN no processo, l\u00e1 em 2019, n\u00e3o se duvidaria de uma c\u00f3pia da mesma farsa da facada. Ou seja, o surrado artif\u00edcio, mais torpemente usado quanto mais esse governo afunda, do uso descarado da mentira para dar um recado claro: somos uma mil\u00edcia (no melhor estilo das ditaduras \u2013 ainda que nem isso sejam capazes de fazer direito) n\u00f3s matamos quem e o que queremos, do jeito que pretendemos, a hora que desejamos; e agora estamos aniquilando uma salvaguarda cient\u00edfica, que \u00e9 a preserva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 essencial para nos resguardar da barb\u00e1rie \u2013 ripando (<em>sic<\/em>) esse pessoal do IPHAN \u201ccom p\u00ea ag\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Humanidade e Mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A preserva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a garantia do trabalho do IPHAN, entre demais import\u00e2ncias, nos protege da estupidez. Esse fato precisa ser sublinhado especialmente em momentos nefastos da hist\u00f3ria como o que estamos vivendo. Pois a import\u00e2ncia dessa prote\u00e7\u00e3o est\u00e1 em podermos seguir com sa\u00fade mental para manter a clarivid\u00eancia no prosseguimento do permanente trabalho de pensamento sobre o humano, que ilumina desde a mem\u00f3ria at\u00e9, por isso, o presente e o futuro do que \u00e9 isso que chamamos de n\u00f3s (mesmos) \u2013 e do que n\u00e3o \u00e9 (e \u00e9 maior que o humano e da\u00ed que o suporta \u2013 literalmente! \u2013 e o assegura).<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a mem\u00f3ria, em tal momento da obra do fil\u00f3sofo ingl\u00eas T. Hobbes, por exemplo, aparece especialmente como uma garantia para sermos quem somos. Sem mem\u00f3ria, \u00e9 praticamente perempt\u00f3rio, conforme Hobbes, que j\u00e1 n\u00e3o possamos ser n\u00f3s mesmos. O corpo at\u00e9 pode estar ali. Mas n\u00e3o h\u00e1 identidade. N\u00e3o por acaso, trata-se do mesmo fil\u00f3sofo que imagina o pacto social como ato inaugurante de uma civilidade que deixa o <em>estado de natureza<\/em> pra tr\u00e1s. L\u00e1, es seres humanes \u2013 e isso \u00e9 uma hip\u00f3tese especulativa de origem \u2013 se matavam por \u00e1gua, comida, abrigo; com o <em>pacto<\/em>, d\u00e3o a um soberano (e no texto \u00e9 masculino mesmo, sem alternativa de declina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero) o poder exclusivo da viol\u00eancia (isto \u00e9, de poder matar), e ent\u00e3o podem conviver sem medo (e sem necessidade) de matarem-se umes aes outres.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se v\u00ea, h\u00e1 neste Hobbes (e em muites outres pensadores), a procura atenta e persistente pelas engrenagens que garantem a preserva\u00e7\u00e3o da humanidade, seja no (auto)conhecimento, atrav\u00e9s da mem\u00f3ria; seja na pol\u00edtico-\u00e9tica, atrav\u00e9s da forma de organiza\u00e7\u00e3o social. Portanto, todo um elogio e cuidado \u00e0 natureza humana que, exatamente, arrepia a bolsonariedade \u2013 e que, exatamente (e n\u00e3o s\u00f3!) \u00e9 uma das atividades que as artes s\u00e3o capazes de fazer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Identidade, arte; tempo e Nat\u00e1lia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse tempo sombrio no qual algu\u00e9m com algum poder ri grunhindo achando que pode dizimar a civiliza\u00e7\u00e3o com um discurso mal feito, a arte automaticamente se imp\u00f5e. Fica naturalmente expl\u00edcito atrav\u00e9s dela \u2013 como se precisasse \u2013 que a mem\u00f3ria \u00e9 uma das mat\u00e9rias primas pelas quais o trabalho art\u00edstico firma algumas de suas caracter\u00edsticas principais, que \u00e9 a busca, a descoberta e a constru\u00e7\u00e3o de identidades. Ao plasmar esse reconhecimento mnem\u00f4nico tanto coletivo como individual, ela faz o servi\u00e7o de desvelar e de preservar, ao mesmo tempo, os tempos em que as coisas <em>eram<\/em>, para em seguida se poder dizer que elas <em>s\u00e3o<\/em>, e que em seguida j\u00e1 <strong><em>ser\u00e3o<\/em><\/strong> de outra forma.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 reconhecimento poss\u00edvel sem a preserva\u00e7\u00e3o do que foi constru\u00eddo em tempo anterior.\u00a0 O trabalho humane de ser humane \u00e9 meticuloso. \u00c9 por isso que se criou a ideia de cultura, \u00e9 por isso que j\u00e1 n\u00e3o nos matamos (tanto) por t\u00e3o pouco (embora se tenha voltado, com orgulho, a essa selvageria). \u00c9 por isso que criamos institutos como o IPHAN. \u00c9 por isso que uma revista (e editora) como a <strong><em>Panorama Cr\u00edtico<\/em><\/strong> retorna.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi com a <strong><em>PC<\/em><\/strong>, l\u00e1 no j\u00e1 long\u00ednquo 2009 (nem faz tanto assim, mas ataques profundos \u00e0 humanidade nos fazem sentir envelhecer mais r\u00e1pido) que esse reconhecimento de identidade atrav\u00e9s da arte preservada, num trabalho de arquivo incr\u00edvel, foi tornado dossi\u00ea (na <a href=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/edicoes-anteriores\/edicao-06\/\" data-type=\"page\" data-id=\"311\">sexta<\/a> edi\u00e7\u00e3o da revista). Precisar retomar aquela tarde de muita emo\u00e7\u00e3o na <em>Oficina de Criatividade do Hospital Psiqui\u00e1trico S\u00e3o Pedro<\/em> observando em sil\u00eancio e admirado as obras da artista-interna Nat\u00e1lia \u00e9 uma felicidade, n\u00e3o fosse a tristeza de ter que us\u00e1-la como imunizante \u00e0 canalhice assassina que pensa poder fazer desaparecer trabalhos e institui\u00e7\u00f5es que revelam, por exemplo, o que segue:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cNat\u00e1lia \u00e9 a interna doente mental Nat\u00e1lia Leite, que no belo trabalho do ex-estagi\u00e1rio F\u00e1bio dal Molin (veja o texto no dossi\u00ea), tem sua vida explicada-narrada-sentida. Com sua mem\u00f3ria de vida e sua obra guardada e exposta, Nat\u00e1lia \u00e9 um pouco mais: parte da identifica\u00e7\u00e3o da mulher que viveu na segunda metade do s\u00e9culo XX no sul do Brasil, e que teve determinados percal\u00e7os, encaminhamentos e poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es na sua exist\u00eancia, nesta faixa temporal da exist\u00eancia humana, nesta faixa territorial do planeta.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201c\u2026 ao se dispor a organizar (os trabalhos art\u00edsticos des internes), uma das coisas que se pode fazer \u00e9 se ficar sabendo, por exemplo, que Nat\u00e1lia, aos treze anos, fugiu de casa, no interior do estado do Rio Grande do Sul, e, 400 quil\u00f4metros depois, veio parar num hosp\u00edcio, na capital, que na \u00e9poca, o ano de 1956, abrigava com sua lota\u00e7\u00e3o m\u00e1xima: cinco mil internes. E saber mais: que depois de tentativas de sa\u00eddas e voltas necess\u00e1rias ao hospital como \u00fanico lugar de abrigo, Nat\u00e1lia encontre hoje a serenidade poss\u00edvel numa cor de ab\u00f3bora, que invariavelmente invade seus bordados e desenhos (detalhe no texto da sexta edi\u00e7\u00e3o).\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>(\u2026)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\"><em>\u201cDa vontade de se dispor a organizar-arquivar o material produzido por estes louques transformades em artistas, surge <strong>a transforma\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria individual em hist\u00f3ria social<\/strong>.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Nem percebemos, mas j\u00e1 estamos recolhendo os cacos gerados pela bolsonariedade, limpando o sangue (ainda que muito esteja e ainda v\u00e1 escorrer), retomando o ar nos pulm\u00f5es, para que esse \u00ednterim ignominioso da hist\u00f3ria fique o mais excentricamente exposto poss\u00edvel, para que n\u00e3o se esque\u00e7a, para que nunca mais aconte\u00e7a. Essa \u00e9 <strong><em>A a\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do lugar que estamos<\/em><\/strong>, neste lugar, neste momento, para responder ao editorial da <strong><em>PC<\/em><\/strong> e agradecer e comemorar sua volta. Pela preserva\u00e7\u00e3o do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico da arte que \u00e9 nos mantermos humanes: salve a cr\u00edtica, <em>Panorama<\/em>!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<ol class=\"has-small-font-size wp-block-list\"><li><span style=\"font-size: revert; color: initial;\">Prof. de filosofia, jornalista, ms. em comunica\u00e7\u00e3o<\/span>.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Cr\u00e9dito da imagem:<br>MARS (Museu Antropol\u00f3gico do RS) &#8211; http:\/\/museuantropologico.blogspot.com\/2013\/06\/tradicao-tupiguarani.html<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Andr\u00e9 D. Pares.<br \/>\nA preserva\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a garantia do trabalho do IPHAN, entre demais import\u00e2ncias, nos protege da estupidez. Esse fato precisa ser sublinhado especialmente em momentos nefastos da hist\u00f3ria como o que estamos vivendo. Pois a import\u00e2ncia dessa prote\u00e7\u00e3o est\u00e1 em podermos seguir com sa\u00fade mental para manter a clarivid\u00eancia no prosseguimento do permanente trabalho de pensamento sobre o humano, que ilumina desde a mem\u00f3ria at\u00e9, por isso, o presente e o futuro do que \u00e9 isso que chamamos de n\u00f3s (mesmos) \u2013 e do que n\u00e3o \u00e9 (e \u00e9 maior que o humano e da\u00ed que o suporta \u2013 literalmente! \u2013 e o assegura)<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1761,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,6,5,42,4,36],"tags":[],"class_list":{"0":"post-1752","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-arte","8":"category-brasil","9":"category-contemporanea","10":"category-edicao01","11":"category-ensaio","12":"category-volume-02","14":"post-with-thumbnail","15":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1752","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1752"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1752\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1820,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1752\/revisions\/1820"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1761"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1752"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1752"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1752"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}