{"id":1942,"date":"2022-03-06T20:19:32","date_gmt":"2022-03-06T20:19:32","guid":{"rendered":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/?p=1942"},"modified":"2023-02-16T13:03:50","modified_gmt":"2023-02-16T13:03:50","slug":"um-olhar-particular-sobre-a-colecao-sartori","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/um-olhar-particular-sobre-a-colecao-sartori\/","title":{"rendered":"Um olhar particular sobre a cole\u00e7\u00e3o Sartori"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"has-text-align-right has-medium-font-size wp-block-heading\">J\u00falio C\u00e9sar Herbstrith<sup>1<\/sup><\/h2>\n\n\n\n<p>Estudar arte contempor\u00e2nea \u00e9 um ato de perp\u00e9tua desconstru\u00e7\u00e3o; ver arte contempor\u00e2nea, tamb\u00e9m. Geralmente, quando escrevemos sobre arte contempor\u00e2nea, partimos de uma ideia ou ideias do que seja o contempor\u00e2neo, e sempre (quase que inevitavelmente) nos inserimos em alguma ordem do discurso utilizando ferramentas te\u00f3ricas que nos permitam construir e defender uma argumenta\u00e7\u00e3o que justifique a contemporaneidade de determinadas produ\u00e7\u00f5es. Mas, para que os argumentos n\u00e3o se fragilizem pela dist\u00e2ncia do objeto estudado, sobretudo, \u00e9 preciso viver com a arte contempor\u00e2nea. \u00c9 na mistura entre, \u201cviver e pensar com\u201d, que gostaria de tecer algumas linhas sobre a exposi\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cCole\u00e7\u00e3o Sartori \u2014 A arte contempor\u00e2nea habita Ant\u00f4nio Prado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O Museu de Arte do Rio Grande do Sul, situado em Porto Alegre, inaugurou recentemente a exposi\u00e7\u00e3o da Cole\u00e7\u00e3o Sartori. Com foco na arte contempor\u00e2nea, a cole\u00e7\u00e3o possui em torno de quatrocentas obras, sendo que, mais de duzentas e cinquenta delas habitam momentaneamente o Museu. Com curadoria de Paulo Herkenhoff (1949), o recorte est\u00e1 situado no primeiro andar do pr\u00e9dio Hist\u00f3rico, ocupando desde o Hall de entrada, o espa\u00e7o central deste andar e as suas duas alas (as pinacotecas), a Sala Aldo Locatelli e as Salas Negras.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo na entrada, o visitante se depara n\u00e3o apenas com o servi\u00e7o que informa o conte\u00fado da Mostra, mas tamb\u00e9m com os textos de curadoria de Herkenhoff, o texto institucional de Francisco Dalcol, diretor do Museu e o espa\u00e7o reservado \u00e0 fala dos colecionadores, Nadia Ravanello Pasa e Paulo Sartori. S\u00e3o textos que apresentam ao p\u00fablico a cole\u00e7\u00e3o iniciada em 2013 e que, nas palavras de Herkenhof, \u201cn\u00e3o para de crescer, prioriza arte do Rio Grande do Sul e que, sendo uma boa cole\u00e7\u00e3o ga\u00facha, sempre ter\u00e1 uma relev\u00e2ncia no pa\u00eds\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No texto institucional, Dalcol, al\u00e9m dos habituais agradecimentos, sempre necess\u00e1rios, aponta para a import\u00e2ncia de expor cole\u00e7\u00f5es e reconhece nelas parte \u201cfundamental\u201d dos sistemas das artes (o plural aqui empregado \u00e9 por minha conta, j\u00e1 que acredito mais em sistemas do que em sistema). Tal import\u00e2ncia se estende desde a rede de constitui\u00e7\u00e3o dos valores art\u00edsticos, nas palavras de Dalcol, at\u00e9 \u00e0s inst\u00e2ncias de legitima\u00e7\u00e3o dos artistas e suas obras, bem como da constitui\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. O que mostra que mesmo em curto espa\u00e7o dedicado a agradecimentos, Dalcol segue sendo pesquisador\/diretor \u2013 e isso \u00e9 bom.<\/p>\n\n\n\n<p>Do texto dos colecionadores, apesar de ser curto, gostaria de destacar dois termos que talvez resumam a import\u00e2ncia da cole\u00e7\u00e3o para eles: \u201cprazer\u201d e \u201ccompartilhar\u201d. Duas palavras que aparecem no meio dos dois par\u00e1grafos, mas que julgo sintetizar o mesmo sentimento que me leva a escrever estas linhas: o prazer que tive em ver a Mostra e agora poder compartilhar, atrav\u00e9s de pensamentos formalizados em palavras \u2013 que nunca vai dar a dimens\u00e3o do estar com as obras.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As Obras<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na frente destes textos, j\u00e1 travamos contato com o trabalho de Xadalu (1985), com as imagens dos ind\u00edgenas em coletes \u00e0 prova de algo.&nbsp;<em>Invas\u00e3o Colonial \u2013 meu corpo nosso territ\u00f3rio<\/em>, de certa forma, marca com precis\u00e3o uma das partes mais importantes desta exposi\u00e7\u00e3o organizada por n\u00facleos: a parte que abre espa\u00e7o na arte para a escuta, a fim de ouvir os povos origin\u00e1rios para compreender que estamos em&nbsp;<em>\u00c1rea Ind\u00edgena<\/em>. A montagem da mostra se organiza por n\u00facleos conceituais acompanhados por textos na parede que, segundo Herkenhoff, servem para \u201c\u2026 provocar a curiosidade e aprofundar o envolvimento dos visitantes com o conjunto\u201d (HERKENHOFF, ZERO HORA \u2013 29 e 30 de janeiro de 2022).<\/p>\n\n\n\n<p>Quando entrei nas Pinacotecas do primeiro andar do MARGS, onde efetivamente se encontra a maior quantidade de obras, escolhi o caminho da esquerda. Uma pequena pintura de Iber\u00ea Camargo (1914-1994) de 1988 estava quase que \u00e0 frente de&nbsp;<em>\u201cOn Ice\u201d<\/em>&nbsp;de Vera Chaves Barcellos (1938). Pensei nessa conversa estranha e nem sempre amistosa que exp\u00f5e os tensos n\u00f3s entre arte moderna e contempor\u00e2nea no solo ga\u00facho. Resolvi seguir os caminhos da antiga \u201cgente mo\u00e7a\u201d capitaneada por Barcellos e materializada no Grupo N.O. Neste caminho que busquei \u00e0 esquerda, encontrei Waltercio Caldas (1946), mais adiante Tunga (1952-2016), Jos\u00e9 Resende (1945), Patr\u00edcio Farias (1940), o jovem T\u00falio Pinto (1974), todos os trabalhos conversando sobre experimentalismo, conceito, forma e espa\u00e7o, talvez uma pitada de ironia conceitual tamb\u00e9m. Este n\u00facleo da exposi\u00e7\u00e3o apresentado em um texto preciso (em dois sentidos, de necessidade e de precis\u00e3o) que nos chama aten\u00e7\u00e3o para a linha que costura o n\u00facleo&nbsp;<em>arte, f\u00edsica e conceito<\/em>. Sobretudo, quem gosta de Hist\u00f3ria da arte e de arte contempor\u00e2nea se sente praticando o \u201c<em>Slackline<\/em>\u201d que marca o in\u00edcio da arte contempor\u00e2nea no Rio Grande do Sul, afinal que conversa estranha o Iber\u00ea estava tendo com a Vera Chaves?<\/p>\n\n\n\n<p>Do experimentalismo conceitual, passando pela ironia, e por um tipo de arte que desafia a fisicalidade corp\u00f3rea das coisas e suas rela\u00e7\u00f5es com o espa\u00e7o que habitam, ainda temos nesse mesmo local do MARGS obras que buscam responder \u00e0 pergunta de um dos textos precisos \u2013&nbsp;<em>Como vai voc\u00ea na Cole\u00e7\u00e3o Sartori, Gera\u00e7\u00e3o 80?<\/em>&nbsp;Vai muito bem! Karin Lambrecht (1957), Lia Menna Barreto (1959), Maria L\u00facia Cattani (1958-2015), Frantz (1963), Milton Kurtz (1951-1996) e M\u00e1rio R\u00f6hnelt (1950-2018), mais Leda Catunda (1961) entre outros que deixo de fora como convite a ver a exposi\u00e7\u00e3o, costuram esse tecido contempor\u00e2neo marcado pelo conceitualismo dos tempos de AI-5 e por um desejo de gesto e de corpo que sublinhava o fim do regime de ditadura na primeira metade dos anos 1980.<\/p>\n\n\n\n<p>Cabe pontuar que nesse mesmo local da mostra o curador criou outra conversa estranha, mas, essa mais interessante. Dialogam na parede do MARGS&nbsp;<em>\u201cO vendedor de pele<\/em>\u201d (1903) de Pedro Weing\u00e4rtner (1853-1929),&nbsp;<em>\u201cTote Hase Weinen Nicht\u201d<\/em>&nbsp;(coelho morto n\u00e3o chora, de 1990) de Karin Lambrecht e \u201c<em>Cortado\u201d<\/em>&nbsp;(1990) de Lia Menna Barreto. Segundo o curador, este conjunto aborda \u201ca rela\u00e7\u00e3o entre vida e morte, dimens\u00f5es cruciais da exist\u00eancia humana\u201d. Esse gesto curatorial de criatividade e coragem de criar um di\u00e1logo conceitual entre uma obra que antecede mesmo o modernismo no Rio Grande do Sul e duas que fincam a bandeira da arte contempor\u00e2nea no Estado \u00e9 digno de um olhar muito atento de quem for visitar a exposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um truque, n\u00e3o vejo como chiste, mas como um gesto que mostra o quanto o contempor\u00e2neo pode estar carregado de \u201cn\u00f3s temporais\u201d que embaralham a hist\u00f3ria da arte.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Aten\u00e7\u00e3o \u00c1rea Ind\u00edgena,&nbsp;<\/em>na pinacoteca central da mostra revela a pot\u00eancia de uma Cole\u00e7\u00e3o que nasce atenta \u00e0s atuais quest\u00f5es contempor\u00e2neas. Um olhar para os processos colonizadores, que exp\u00f5e as mazelas estruturais e colocam todos os dedos nas feridas sociais abertas neste pa\u00eds. Um recorte que apresenta falas contra hegem\u00f4nicas, apesar das sistem\u00e1ticas tentativas de apagamento destas. A instala\u00e7\u00e3o de Xadalu \u2013&nbsp;<em>Aten\u00e7\u00e3o \u00c1rea Ind\u00edgena<\/em>&nbsp;nos convoca \u00e0 reflex\u00e3o sobre o espa\u00e7o que habitamos, pelo qual nos deslocamos cotidianamente, muitas vezes desviando olhar e o corpo dos corpos e olhares espalhados pelo centro hist\u00f3rico da cidade., Corpos e olhares que nos interpelam com suas cren\u00e7as registradas em pequenas figuras de madeira e cestarias.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez uma das partes mais atualizadas desta exposi\u00e7\u00e3o que conseguiu reunir nomes como Rosana Paulino (1967), Nelson Leirner (1932-2020), Adriana Varej\u00e3o (1964) entre outros, cujos trabalhos mais do que mostrar um multiculturalismo af\u00e1vel e feliz que forma nossa sociedade, apresenta as tens\u00f5es e tentativas de apagamento das mem\u00f3rias e dos corpos \u00e0s margens. A exposi\u00e7\u00e3o ainda se debru\u00e7a sobre a chamada Pop Arte Ga\u00facha, ressaltando a relev\u00e2ncia de nomes como Glauco Rodrigues (1929-2004) e Carlos Vergara (1941), sobretudo, mostra como a arte produzida no Rio Grande do Sul tem para com a figura\u00e7\u00e3o um vasto e f\u00e9rtil campo de produ\u00e7\u00e3o. Do ponto de vista das linguagens contempor\u00e2neas, quase tudo est\u00e1 posto. No entanto, como n\u00e3o tivemos nesta mostra a totalidade da Cole\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos aferir se foi por recorte curatorial, quest\u00f5es de espa\u00e7o f\u00edsico do Museu ou os velhos problemas tecnol\u00f3gicos que assombram curadorias que considerem a vertente da arte, tecnologia e ci\u00eancia, mas o fato \u00e9 que este bra\u00e7o presente na contemporaneidade n\u00e3o est\u00e1 representado na exposi\u00e7\u00e3o. Sabemos que arte digital est\u00e1 para al\u00e9m do mero uso das ferramentas digitais de reprodu\u00e7\u00e3o, &nbsp;pois, potencializa as rela\u00e7\u00f5es entre arte e tecnologias de e em rede, como web arte e projetos de car\u00e1ter mais imersivo, interativo ou que explorem as tens\u00f5es entre o real e o virtual no contexto de ciberespa\u00e7os, contudo, propostas com este recorte encontram-se ausentes. Mesmo que seja fruto da escolha curatorial ou de uma cole\u00e7\u00e3o jovem em ascens\u00e3o, \u00e9 preciso tamb\u00e9m pensar a partir destas produ\u00e7\u00f5es que retomam a pauta Arte-Ci\u00eancia-Tecnologias, as quais, em nosso pa\u00eds foram pensadas a partir de artistas como Waldemar Cordeiro (1925-1973), Diana Domingues (1947) ou Giselle Beiguelman (1962).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1600\" height=\"900\" src=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Marina_ExpoSartori.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1945\" srcset=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Marina_ExpoSartori.jpeg 1600w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Marina_ExpoSartori-300x169.jpeg 300w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Marina_ExpoSartori-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Marina_ExpoSartori-768x432.jpeg 768w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Marina_ExpoSartori-1536x864.jpeg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Detalhe da exposi\u00e7\u00e3o <em>Cole\u00e7\u00e3o Sartori<\/em>, MARGS. Marina Camargo, Mapa-mole I &#8211; Desenho recortado em l\u00e1tex | 160x140x20cm | 2019. Fotografia de Adreson Vita S\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>A Exposi\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Me encaminhado para o final deste breve relato, gostaria de destacar pontos curiosos da mostra. Por falar em curioso, em alguns momentos a montagem da exposi\u00e7\u00e3o disp\u00f5e no mesmo peda\u00e7o de parede uma pequena multid\u00e3o de trabalhos que me lembrou um pouco os antigos gabinetes de curiosidades. Neste sentido, penso que as mais de 250 obras poderiam ter sido racionalizadas de forma diferente, sem que a mostra perdesse a qualidade que tem e que n\u00e3o se pode duvidar; mas o espa\u00e7o do primeiro andar do Museu certamente ofereceu um grande quebra-cabe\u00e7as para curadoria e montagem, \u00e0 qual em alguns pontos me pareceu pecar pela quantidade. A rela\u00e7\u00e3o de proximidade com os detalhes que poder\u00edamos perceber em determinados trabalhos \u00e9 sacrificado quando nosso olhar se p\u00f5e distante e tem que percorrer a altitude do p\u00e9 direito do espa\u00e7o expositivo. Sobre os precisos textos, ainda que breves, cumprem muito bem a sua fun\u00e7\u00e3o de instigar e convidar os visitantes a pensar com e a partir da mostra e oferecem uma media\u00e7\u00e3o inteligente, sem ser pedantes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1600\" height=\"900\" src=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-02-25-at-10.38.20.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1949\" srcset=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-02-25-at-10.38.20.jpeg 1600w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-02-25-at-10.38.20-300x169.jpeg 300w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-02-25-at-10.38.20-1024x576.jpeg 1024w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-02-25-at-10.38.20-768x432.jpeg 768w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/WhatsApp-Image-2022-02-25-at-10.38.20-1536x864.jpeg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Detalhe da exposi\u00e7\u00e3o <em>Cole\u00e7\u00e3o Sartori<\/em>, MARGS &#8211; n\u00facleo &#8220;Arte, conceito e f\u00edsica&#8221;. Fotografia de Adreson Vita S\u00e1<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o comentei as exposi\u00e7\u00f5es do segundo andar do pr\u00e9dio, mas cabe destacar que elas conversam e muito bem com a Mostra \u2013&nbsp;<em>Cole\u00e7\u00e3o Sartori<\/em>, sendo que o Projeto<em>&nbsp;Acervo em Movimento,<\/em>&nbsp;onde figuram as mais novas aquisi\u00e7\u00f5es do Museu, traz nomes importantes no contexto da arte contempor\u00e2nea como Elaine Tedesco (1963), \u00c9lida Tessler (1961) e Carlos Asp (1949), entre outros, mas cito estes por seu di\u00e1logo direto com a Cole\u00e7\u00e3o Sartori. Ainda no segundo andar do pr\u00e9dio \u00e9 poss\u00edvel ver a exposi\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cDione Veiga Vieira \u2014 TERREAL\u201d que faz circular obras pertencentes aos acervos do MARGS, Museu de Arte Contempor\u00e2nea do Rio Grande do Sul, do MACRS, da Funda\u00e7\u00e3o Vera Chaves Barcellos \u2014 FVCB, da Pinacoteca Aldo Locatelli da Prefeitura de Porto Alegre al\u00e9m de cole\u00e7\u00f5es particulares. Ou seja, ap\u00f3s terminarmos 2021 com um bom trabalho de resgate da arte contempor\u00e2nea ga\u00facha, iniciamos muito bem o ano falando de arte contempor\u00e2nea no RS, no que se refere \u00e0 trazer ao p\u00fablico as produ\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas. Fa\u00e7o men\u00e7\u00e3o, sobretudo, \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o \u2013 ARTE CONTEMPOR\u00c2NEA RS, que ocorreu na metade do ano passado (2021) e trouxe ao p\u00fablico parte significativa do Acervo do jovem Museu de Arte Contempor\u00e2nea do Rio Grande do Sul, e que culminou em um&nbsp;<a href=\"https:\/\/acervomacrs.com\/catalogo\/\">cat\u00e1logo<\/a>&nbsp;digital&nbsp;<em>on line<\/em>&nbsp;e f\u00edsico que apresenta, n\u00e3o apenas as obras, mas um importante levantamento dos trabalhos que comp\u00f5em o Acervo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o gostaria de encerrar este espa\u00e7o de reflex\u00f5es sem antes mencionar um trabalho cuja atualidade se faz presente desde a funda\u00e7\u00e3o de nosso pa\u00eds,&nbsp;<em>Gin\u00e1stica de Pele<\/em>&nbsp;(2019) de Berna Reale (1965), v\u00eddeo de 4\u201918\u2019\u2019 que registra a performance de \u201c100 jovens entre 18 e 29 anos (\u2026) que j\u00e1 foram abordados pela pol\u00edcia\u201d. Segundo a artista, o trabalho critica a viol\u00eancia policial motivada por preconceito racial, de classe e homofobia\u201d. (<a href=\"https:\/\/www.premiopipa.com\/2019\/12\/berna-reale-elabora-perfomance-em-que-critica-o-sistema-prisional\/\">site oficial \u2013 Pr\u00eamio PIPA<\/a>). Este trabalho abre di\u00e1logo com a obra de Adriana Varej\u00e3o&nbsp;<em>Tintas polvo<\/em>, tubos de tinta para pintura art\u00edstica que apresentam uma varia\u00e7\u00e3o crom\u00e1tica que tem como base a autoidentifica\u00e7\u00e3o do brasileiro com sua \u201cra\u00e7a\u201d ou \u201ccor\u201d a partir de pesquisa realizada pelo IBGE. O resultado n\u00e3o poderia ser outro, a mistura, a variedade a pluralidade de tons. O mesmo plural crom\u00e1tico que vemos no v\u00eddeo de Berna, por\u00e9m, a pot\u00eancia do trabalho de Reale est\u00e1 na sua infeliz e permanente atualidade. Os jovens performando no v\u00eddeo simulam \u201c\u2026 o exerc\u00edcio de prender, de abordar, de encarcerar nossa juventude\u201d, como explica Berna (<a href=\"https:\/\/www.premiopipa.com\/2019\/12\/berna-reale-elabora-perfomance-em-que-critica-o-sistema-prisional\/\">site oficial \u2013 Pr\u00eamio PIPA<\/a>). Al\u00e9m da qualidade t\u00e9cnica e est\u00e9tica do v\u00eddeo, apresentada atrav\u00e9s de uma edi\u00e7\u00e3o que coloca o v\u00eddeo em uma situa\u00e7\u00e3o n\u00f4made entre obra e registro de performance, sua pot\u00eancia est\u00e1 na a\u00e7\u00e3o, no simulacro de um cotidiano marcado pela desigualdade social, desigualdade de direitos e banaliza\u00e7\u00e3o da injusti\u00e7a social amarrada ao racismo estrutural em nosso pa\u00eds. Ao ver este trabalho de Berna, sinto que ele marca justamente pela capacidade de amarrar todo o centro da exposi\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter mais cr\u00edtico; ele se costura com os notici\u00e1rios di\u00e1rios e escancara a nossa falta de capacidade de rea\u00e7\u00e3o em uma p\u00e1tria cada vez mais armada e que nunca foi de todos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity\"\/>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>J\u00falio C\u00e9sar Herbstrith \u00e9 Doutorando em Hist\u00f3ria, Teoria e Cr\u00edtica da Arte pelo PPGAV\/UFRGS, onde desenvolve pesquisa sobre arte contempor\u00e2nea no Rio Grande do Sul, atua como docente na Universidade Feevale desde 2013.<br>* Fotografias por Adreson Vita S\u00e1<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por J\u00falio C\u00e9sar Herbstrith.<br \/>\nEstudar arte contempor\u00e2nea \u00e9 um ato de perp\u00e9tua desconstru\u00e7\u00e3o, ver arte contempor\u00e2nea, tamb\u00e9m. Geralmente quando escrevemos sobre arte contempor\u00e2nea, partimos de uma ideia ou ideias do que seja o contempor\u00e2neo, e sempre (quase que inevitavelmente) nos inserimos em alguma ordem do discurso utilizando ferramentas te\u00f3ricas que nos permitam construir e defender uma argumenta\u00e7\u00e3o que justifique a contemporaneidade de determinadas produ\u00e7\u00f5es. Mas, para que os argumentos n\u00e3o se fragilizem pela dist\u00e2ncia do objeto estudado, sobretudo, \u00e9 preciso viver com a arte contempor\u00e2nea. \u00c9 na mistura entre, \u201cviver e pensar com\u201d, que gostaria de tecer algumas linhas sobre a exposi\u00e7\u00e3o &#8211; \u201cCole\u00e7\u00e3o Sartori \u2014 A arte contempor\u00e2nea habita Ant\u00f4nio Prado\u201d.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1961,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,6,13,5,42,4,36],"tags":[61,28,62],"class_list":{"0":"post-1942","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","6":"hentry","7":"category-arte","8":"category-brasil","9":"category-brasileira","10":"category-contemporanea","11":"category-edicao01","12":"category-ensaio","13":"category-volume-02","14":"tag-arte-contemporanea","15":"tag-artes-visuais","16":"tag-margs","18":"post-with-thumbnail","19":"post-with-thumbnail-large"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1942","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1942"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1942\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3200,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1942\/revisions\/3200"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1961"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1942"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1942"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1942"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}