{"id":2987,"date":"2023-02-01T00:49:03","date_gmt":"2023-02-01T00:49:03","guid":{"rendered":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/?p=2987"},"modified":"2023-02-16T13:04:46","modified_gmt":"2023-02-16T13:04:46","slug":"o-artista-como-trabalhador-precarizado-entrevista-com-elias-maroso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/o-artista-como-trabalhador-precarizado-entrevista-com-elias-maroso\/","title":{"rendered":"Entradas e sa\u00eddas, atravessamentos e o artista como trabalhador precarizado &#8211; entrevista com Elias Maroso"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"has-text-align-right wp-block-heading\"><strong>por Panorama Cr\u00edtico<sup>1<\/sup><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"color:#5c5e5f;font-size:15px\">Em uma tarde escaldante e abafada do in\u00edcio de dezembro em Porto Alegre, me encontro com o artista visual Elias Maroso para uma agrad\u00e1vel conversa no Multicultura Caf\u00e9. Ap\u00f3s cerca de uma hora de bate papo informal resolvemos come\u00e7ar a registrar a conversa. Entre um caf\u00e9 e outro, uma \u00e1gua e outra, a conversa abordou quest\u00f5es sobre sistema das artes, a po\u00e9tica do atravessamento, algumas recorda\u00e7\u00f5es de outro momento das pol\u00edticas culturais no Brasil, anseios, angustias, carreira e at\u00e9 algumas refer\u00eancias ao Big Brother&#8230;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-cyan-bluish-gray-color has-alpha-channel-opacity has-cyan-bluish-gray-background-color has-background is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><b>Panorama Cr\u00edtico: Primeiramente gostaria de <\/b><strong>agradecer por ter aceitado nosso convite de participar dessa entrevista. Vou te fazer a primeira pergunta: quem \u00e9 Elias Maroso??<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elias Maroso: <em>Agrade\u00e7o o convite. Acompanho a Panorama Cr\u00edtico h\u00e1 alguns anos e \u00e9 muito bom seu retorno com entrevistas e textos. Sou Elias Maroso artista e pesquisador, nasci em Sarandi, Rio Grande do Sul, interior do interior do estado. Hoje, vivo e trabalho em Porto Alegre. Em minha trajet\u00f3ria, tenho passagens por v\u00e1rios contextos de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, sejam ou autogestado, seja acad\u00eamico ou institucional. J\u00e1 me dediquei a coletivos de arte, a espa\u00e7os independentes e, por outra via, costumo dizer que frequentei institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de ensino da creche ao doutorado. Al\u00e9m disso, venho abrindo caminhos no circuito da arte contempor\u00e2nea, atrav\u00e9s de editais e eventos j\u00e1 consolidados. Procuro, assim, n\u00e3o estar em um lugar apenas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea possui forma\u00e7\u00e3o na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), certo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Isso. Fiz a gradua\u00e7\u00e3o na UFSM, seguindo l\u00e1 por com uma especializa\u00e7\u00e3o em design de superf\u00edcie e mestrado em Arte e Tecnologia. Ano passado, conclu\u00ed o doutorado na UFRGS, em Po\u00e9ticas Visuais. Foi uma conclus\u00e3o para tempos pand\u00eamicos, feita remotamente. Ao passar pela academia do ensino p\u00fablico, pude desenvolver um pensamento art\u00edstico autoral, tanto em termos pr\u00e1ticos quanto te\u00f3ricos. Foi uma das sa\u00eddas para dar forma e vaz\u00e3o \u00e0 minha po\u00e9tica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E tu vens atuando com arte. Poder\u00edamos dizer que voc\u00ea \u00e9 um agraciado por conseguir se manter s\u00f3 com trabalho em artes, no campo art\u00edstico. H\u00e1 quanto tempo vens atuando assim?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Logo ap\u00f3s a gradua\u00e7\u00e3o, dividia o tempo das ideias pr\u00f3prias com trabalhos de ilustra\u00e7\u00e3o e desenho gr\u00e1fico. Venho buscando sa\u00eddas para trabalhos autorais desde 2010. O fazer art\u00edstico propriamente dito come\u00e7ou a n\u00e3o concorrer com outras atividades da vida pr\u00e1tica com bolsas de estudo em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. A universidade p\u00fablica garantiu certa dedica\u00e7\u00e3o ao meu pensamento po\u00e9tico via cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Agora, h\u00e1 mais ou menos dois anos, come\u00e7o a manter alguma rotina apenas com trabalhos art\u00edsticos. No entanto, \u00e9 uma rotina de incertezas e longe de ser abastada. Da metade pro fim do doutorado, pude me dedicar, assim, apenas \u00e0 arte contempor\u00e2nea, com oportunidades alcan\u00e7adas por um persistente caminho de tentativas, constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e de reconhecimento. Nada f\u00e1cil. As chances v\u00eam surgindo de um louco compromisso, conduzindo a um repert\u00f3rio particular e, tamb\u00e9m, \u00e0 alguma visibilidade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>No ano de 2020 chegou \u00e0 <a href=\"https:\/\/www.premiopipa.com\/elias-maroso\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">indica\u00e7\u00e3o ao pr\u00eamio PIPA<\/a>, e esse ano participas da 13\u00aa Bienal do Mercosul. Como voc\u00ea viu isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Olha, teve coisas que come\u00e7aram a acontecer quando vim a Porto Alegre. A chance de visibilidade para artistas ainda acontece com mais facilidade, talvez, quando est\u00e3o em capitais, infelizmente. Ainda parece ser assim, por mais que se discuta a ideia de observar ou estimular o que n\u00e3o est\u00e1 no centro. Vinculo isso a uma ideia de que os centros metropolitanos ainda s\u00e3o os lugares onde se observa e se estimula a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, sem um certo cuidado de descentralizar, olhar para produ\u00e7\u00f5es distantes das demandas convencionais desses centros urbanos e econ\u00f4micos. Essa realidade pode ser mais arejada. Alternativas a isso devem persistir. Como disse, comecei a ser mais percebido quando vim a Porto Alegre para cursar o doutorado em artes visuais.&nbsp; Acredito que o PIPA \u00e9 resultado de algumas exposi\u00e7\u00f5es que participei por aqui, principalmente a mostra do <a href=\"https:\/\/m.facebook.com\/GoetheInstitutPortoAlegre\/videos\/relato-elias-maroso\/377124643408143\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">IV Concurso de Arte Impressa<\/a>, do Goethe-Institut em 2019, que tamb\u00e9m resultou em uma resid\u00eancia art\u00edstica em Berlim, no <a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/blog-page_21.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Kunst Quartier Bethanien\/BBK<\/a>. Isso deu certa visibilidade, sim, porque havia uma exposi\u00e7\u00e3o bem montada, concentrando alguns trabalhos. N\u00e3o era uma exposi\u00e7\u00e3o individual. Ali\u00e1s, ainda n\u00e3o realizei uma exposi\u00e7\u00e3o individual em Porto Alegre.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ainda n\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>At\u00e9 agora, n\u00e3o. O PIPA foi uma surpresa. Estava isolado na pandemia, escrevendo a tese de doutorado. A not\u00edcia chegou no dia primeiro de abril. Parecia zoeira de amigos. Acompanhava afastadamente o pr\u00eamio. Nessa ocasi\u00e3o, depois de receber algumas mensagens de parab\u00e9ns em redes sociais, fui eu mesmo conferir e&#8230; nossa! N\u00e3o imaginava, mesmo! E tem mais: n\u00e3o sei quem indicou. Parece estranho falar isso, mas realmente n\u00e3o sei quem me indicou.<\/em><br><em>De modo geral, as oportunidades foram aparecendo, mas n\u00e3o pularam no colo. Ent\u00e3o, \u00e9 um empenho para abrir caminhos com muita insist\u00eancia.&nbsp; Sou um artista que, como muitos, precisa enviar propostas para editais p\u00fablicos e buscar espa\u00e7os de exposi\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do mais, tamb\u00e9m fa\u00e7o interven\u00e7\u00f5es na rua para n\u00e3o estar s\u00f3 em ambientes fechados. N\u00e3o sou representado por galeria comercial. Tive convites n\u00e3o muito atraentes que n\u00e3o aceitei. A participa\u00e7\u00e3o na 13\u00aa Bienal do Mercosul aconteceu via edital, atrav\u00e9s de uma chamada aberta e p\u00fablica com aproximadamente 800 inscritos, se n\u00e3o me engano. Bem concorrido, com crit\u00e9rios rigorosos de sele\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o cega. N\u00e3o era conhecido. Comecei a ser mais observado em Porto Alegre depois da Bienal do Mercosul, mesmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Somente depois da Bienal?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Acredito que sim. Me parece que o pr\u00eamio PIPA deu uma visibilidade mais nacional e recebo mais convites fora do Rio Grande do Sul.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fala da um pouco tua po\u00e9tica. Voc\u00ea falou antes, a po\u00e9tica do atravessamento. Discorre um pouquinho sobre.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O atravessamento \u00e9 curioso! Vou contar uma anedota&#8230; Quando terminei a <a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/circuitos-do-atravessar.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">tese<\/a> \u2013 n\u00f3s precisamos destacar um conceito operat\u00f3rio que vai guiar a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, o processo criativo \u2013 percebi que&#8230; N\u00e3o, pera\u00ed! Antes da anedota, \u00e9 melhor falar do conceito, mesmo. (risos) <\/em><br><em>Depois de um tempo dedicado ao fazer art\u00edstico, percebi que n\u00e3o consigo&#8230; n\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o consigo&#8230; percebi que naturalmente n\u00e3o me prendo a uma linguagem s\u00f3 e, tamb\u00e9m, n\u00e3o circulo por um lugar apenas, em um tipo de espa\u00e7o somente. Para se movimentar assim, \u00e9 preciso olhar a atividade art\u00edstica de maneira m\u00faltipla e n\u00e3o hierarquizar os lugares onde apresentamos trabalhos. Percebi que minha fissura ou problem\u00e1tica \u2013 falando com termos polidos (risos) \u2013 \u00e9 justamente fazer um tipo de processo que atravessa diferentes lugares, que perpassa, que permeia diferentes maneiras de entender linguagens e contextos de inser\u00e7\u00e3o. No ambiente acad\u00eamico, eu precisei mostrar essa disposi\u00e7\u00e3o criativa com pr\u00e1tica e teoria. Desenvolvi um pensamento e pr\u00e1tica que n\u00e3o est\u00e1 fixado a um lugar s\u00f3, a uma linguagem s\u00f3. \u00c9 uma po\u00e9tica diferente da fixidez, voltada ao que n\u00e3o se encontra est\u00e1tico, ao que n\u00e3o se prende a uma identifica\u00e7\u00e3o estanque. E, quando fiz a tese, tomei o atravessamento como um problema criativo. Desdobrei essa palavra com trabalhos pr\u00e1ticos e reflex\u00f5es ensa\u00edsticas, com <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/voce-nao-esta.html\" target=\"_blank\">interven\u00e7\u00f5es em ambientes abertos e fechados<\/a>, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/infinito-fm.html\" target=\"_blank\">transmissores de r\u00e1dio<\/a> frequ\u00eancia que atravessam fisicamente a parede&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1018\" src=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/VNEeULS01-1024x1018.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3001\" srcset=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/VNEeULS01-1024x1018.jpg 1024w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/VNEeULS01-300x298.jpg 300w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/VNEeULS01-150x150.jpg 150w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/VNEeULS01-768x763.jpg 768w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/VNEeULS01-1536x1526.jpg 1536w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/VNEeULS01.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Voc\u00ea N\u00e3o Est\u00e1 em Um Lugar S\u00f3<\/em>. Registros fotogr\u00e1ficos de interven\u00e7\u00f5es de rua feitas na cidade de Porto Alegre, Brasil, com lambe-lambes de fotoc\u00f3pias. Da direita para a esquerda e de cima para baixo, os locais dos registros s\u00e3o: avenida Crist\u00f3v\u00e3o Colombo,&nbsp;rua General Jo\u00e3o Manoel,&nbsp;rua dos Andradas e rua&nbsp;Washington Luiz. (2018-2019).<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A quest\u00e3o do som que permeia&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Permeia, mas tamb\u00e9m veiculada a efeitos e ondas eletromagn\u00e9ticas, sendo essas ondas invisibilidades que, em certos casos, atravessam fisicamente a parede expositiva. Ent\u00e3o, digamos que, com os radiotransmissores, a pesquisa atingiu certo \u00e1pice pr\u00e1tico, pois concretizei ao p\u00e9 da letra algo que era apenas inten\u00e7\u00e3o abstrata, um termo abstrato \u2013 o atravessamento. Concretizei no sentido de um fen\u00f4meno f\u00edsico de atravessamento. Agora, voltando \u00e0 anedota, quando terminei a tese, foi engra\u00e7ado, porque o atravessamento era o meme intern\u00e9tico da vez, por causa do BBB! (risos)<\/em><br><em>A participante Lumena falava bastante em atravessamento, lembra? Fiquei anos e anos em cima dessa palavra e pronto: desenvolvi a tese com uma palavra memetizada! (risos) Foi bom para n\u00e3o me levar t\u00e3o a s\u00e9rio e, outra coisa, para buscar sin\u00f4nimos. Hoje, poderia sintetizar essa pr\u00e1tica como um fazer criativo que n\u00e3o \u00e9 disciplinar \u2013 num sentido que n\u00e3o \u00e9 de todo obediente e, ainda, no sentido de n\u00e3o isolar a arte numa disciplina do conhecimento. A partir da arte, saio da arte. \u00c9 um movimento de sair da arte atrav\u00e9s da arte. Uma po\u00e9tica de entradas e de sa\u00eddas. Toda vez que saio de um lugar, entro em outro pra construir uma outra sa\u00edda, em um movimento que n\u00e3o para! Toda sa\u00edda \u00e9 entrada para uma outra sa\u00edda. \u00c9 um circuito, digamos assim. Em alguns trabalhos, literalizo esse circuito. O el\u00e9trico pode se conectar a uma rede energ\u00e9tica que atravessa v\u00e1rios espa\u00e7os abertos, fechados, p\u00fablicos ou privados. Tamb\u00e9m, a eletr\u00f4nica \u00e9 utilizada como uma met\u00e1fora de pensamento diagram\u00e1tico, pois, antes de recorrer \u00e0 eletricidade, j\u00e1 desenhava muitos diagramas e <a href=\"https:\/\/4.bp.blogspot.com\/-gbrLEOk9sHg\/XIINcT1IXvI\/AAAAAAAAS5E\/meOzo8ROiwIdMneR1pBxiNEjlbzi_dJLgCLcBGAs\/s800\/MAPA-CONCEITUAL.gif\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mapas mentais<\/a> com termos abertos, conectando palavras e nota\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas. Teve uma fase do processo em que fazia muitos diagramas mentais e n\u00e3o via trabalhos nisso. Achava que pertenciam \u00e0 etapa anterior dos trabalhos, seu planejamento. A\u00ed, comecei a olhar pra esses diagramas e pensei: &#8211; \u201ccomo \u00e9 que posso transformar isso numa proposta art\u00edstica?\u201d. Assim, passei a eletrificar palavras e desenhos. Passei a redimensionar anota\u00e7\u00f5es de caderno como <a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/coisacurva.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">desenhos em cobre e lat\u00e3o fotocorro\u00eddos<\/a>. Uma mistura de t\u00e9cnicas da gravura em metal e da eletr\u00f4nica. Comecei a eletrific\u00e1-los com pulsos el\u00e9tricos, conect\u00e1-los entre si e \u00e0 rede el\u00e9trica dos espa\u00e7os. Mais avan\u00e7adamente, segui com a montagem de sistemas eletr\u00f4nicos. Um transmissor \u00e9 um diagrama eletrificado. Uma placa \u00e9 um diagrama esquem\u00e1tico que, partir de uma circula\u00e7\u00e3o el\u00e9trica, causa um fen\u00f4meno f\u00edsico. Seria como criar uma tradu\u00e7\u00e3o da eletricidade pensante para uma energia em atividade. Por isso, a el\u00e9trica hoje ainda \u00e9 um interesse. Ela marca a presen\u00e7a de um entusiasmo pensante, que sempre esteve nas coisas que fa\u00e7o. Tem, assim, um caminho mais conceitual do que tecnol\u00f3gico, pois comecei a querer externalizar essa eletricidade sin\u00e1ptica, em trabalhos art\u00edsticos.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"967\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/IMG_1825-967x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3013\" srcset=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/IMG_1825-967x1024.jpg 967w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/IMG_1825-283x300.jpg 283w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/IMG_1825-768x813.jpg 768w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/IMG_1825-1451x1536.jpg 1451w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/IMG_1825.jpg 1511w\" sizes=\"auto, (max-width: 967px) 100vw, 967px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Vista geral da instala\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>Diagrama 88.8&nbsp;<\/em>em sua segunda vers\u00e3o. Trabalho apresentado na exposi\u00e7\u00e3o coletiva&nbsp;<em>N\u00e3o-Ver, Visar<\/em>, no Espa\u00e7o de Artes da UFCSPA, Porto Alegre, Brasil. Ano de 2019.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Foi o que tu quis dizer quando comentaste aqui antes, em off, que consideram o trabalho mais como arte e tecnologia, mas o trabalho \u00e9 muito mais conceitual do que propriamente&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o o conceitualismo nos anos 60, n\u00e9? Porque para ser conceitualista, tem muita mat\u00e9ria! (risos)<br>N\u00e3o presto rever\u00eancia a escola da Hist\u00f3ria da Arte. Gosto de falar isso, porque me preocupo em n\u00e3o parecer com coisas j\u00e1 feitas. Busco o estranhamento de mim mesmo no processo criativo e, na verdade, essa coisa da arte tecnologia \u00e9 a maneira como algumas pessoas est\u00e3o lendo o que fa\u00e7o. Hoje, arte, ci\u00eancia e tecnologia \u00e9 um campo de atua\u00e7\u00e3o e essa leitura sobre o que fa\u00e7o est\u00e1 fora de meu alcance. N\u00e3o tenho nenhum compromisso exclusivo ou tem\u00e1tico com a tecnologia. A\u00ed que est\u00e1, a discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mas a tua discuss\u00e3o \u00e9 muito mais conceitual-te\u00f3rica e n\u00e3o \u00e9 uma discuss\u00e3o sobre a tecnologia&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Exato! Ainda que os trabalhos mais recentes recorram \u00e0 eletr\u00f4nica, fa\u00e7o uso de outras processos tamb\u00e9m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Talvez pela constru\u00e7\u00e3o toda que tu fazes das placas, dos circuitos&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Sim. Vejo tudo como uma elabora\u00e7\u00e3o pensante e, claro, tem coisas do processo que a gente n\u00e3o domina. N\u00e3o sei dizer com certeza porque muitos trabalhos t\u00eam apelo gr\u00e1fico, por exemplo. <a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/2019\/03\/texto-pratico.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Alguns t\u00eam apelo gr\u00e1fico<\/a>, t\u00eam formas que dialogam com o desenho industrial. Outra coisa: os trabalhos que usam tecnologia n\u00e3o s\u00e3o parecidos com a produ\u00e7\u00e3o de arte e tecnologia iniciada nos anos 90, ligada \u00e0 improvisa\u00e7\u00e3o de circuitos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Os dispositivos que fa\u00e7o t\u00eam certa polidez de projeto. Talvez isso seja uma maneira de digerir poeticamente a est\u00e9tica dos aparelhos atuais, essa coisa fechadinha que \u00e9 um celular, que \u00e9 um monitor, um controle remoto. Enfim, s\u00e3o maneiras de processar. Tem algum encantamento junto de uma vontade de dessacralizar, de desvelar, tomar com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Uma vontade de ver se consigo fazer parecido. Mimetizar essa est\u00e9tica de maneira artesanal. Mas, nesses casos, s\u00e3o coisas que n\u00e3o paro muito para pensar sua raz\u00e3o de ser. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio decifrar tudo o que se faz. H\u00e1 um prazer de enigma nessa condu\u00e7\u00e3o. O que leva a produzir trabalhos de arte tem sua parcela de crucial insconci\u00eancia, de sensibilidade que n\u00e3o encontra palavras certas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E de onde vem este dom\u00ednio, esse apuro t\u00e9cnico? Pois \u00e9 tu quem montas, constr\u00f3i tudo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Aprendi sozinho. Tenho amigos t\u00e9cnicos que me dizem se o que estou fazendo vai ou n\u00e3o explodir! (risos) Boa parte de meu conhecimento t\u00e9cnico \u00e9 autodidata, aprendi tudo sozinho. Hoje, uso quase nenhuma linguagem que aprendi na universidade. No tempo de forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tinha aulas de arte digital ou eletr\u00f4nica, por exemplo. O 3D, a modelagem 3D, aprendi sozinho. Tenho uma coisa de&#8230; essa coisa de atravessar, tamb\u00e9m \u00e9 sobre atravessar a mim mesmo. Muitos projetos me desafiam pensar solu\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas. Eu tenho certa fissura, uma empolga\u00e7\u00e3o, um entusiasmo de superar a mim mesmo. Isso vai me deslocando do que j\u00e1 fui&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>De um lugar tu entras em outro, e em outro&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Isso! Tu entendeu a ideia! (risos)<br>O atravessamento, ele \u00e9 hoje quase um termo clich\u00ea acad\u00eamico, mas, quando usei em minha pesquisa, me referia ao movimento de atravessar fisicamente um espa\u00e7o, uma disciplina ou limita\u00e7\u00e3o particular. Por isso, tamb\u00e9m \u00e9 sobre a empolga\u00e7\u00e3o de uma conquista, quando dou forma ao que antes nunca tinha feito. Tem certo gosto pela dificuldade. Isso me exige abrir caminho para outra plasticidade cerebral, outra motricidade fina. Quando estava pesquisando durante o doutorado, n\u00e3o sabia exatamente com quais palavras expressaria essa inquietude. Ainda n\u00e3o tinha uma palavra que marcava essa vontade de fazer v\u00e1rias coisas e de n\u00e3o estar em um lugar s\u00f3. Em certo momento, comecei a escrever com a m\u00e3o esquerda, mesmo sendo destro. Fazia isso, porque tinha a sensa\u00e7\u00e3o de que precisava aprender um abec\u00ea novo e, nesse aprendizado, sair com outra escultura cerebral, outros diagramas sin\u00e1pticos, outras possibilidades de linguagem. Ent\u00e3o, sim, todos os trabalhos t\u00eam desafios t\u00e9cnicos e, certamente, desafios conceituais. &nbsp;Procuro trabalhar com essa dupla via da pesquisa linguagem e materiais ressoarem no conceito, na inten\u00e7\u00e3o abstrata. Por exemplo: fa\u00e7o fotocorros\u00e3o em metais, pois quero que desenhos de caderno conduzam eletricidade f\u00edsica. &nbsp;Sempre busco ter uma resson\u00e2ncia entre o uso da linguagem e o conceito, nem que seja o pr\u00f3prio estranhamento de um recurso \u2013 sendo proposital esse estranhamento. Fico muit\u00edssimo tempo em cima das formas. Procuro balancear a inten\u00e7\u00e3o e como isso se apresenta em particular. Tento equilibrar. Existe uma pesquisa t\u00e9cnica, um apuro t\u00e9cnico e isso n\u00e3o sei explicar o porqu\u00ea&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>At\u00e9 est\u00e9tica. Pode ser uma placa ou um circuito, mas notamos que h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Nisso que voc\u00ea se refere, eu vejo pr\u00f3ximo a uma generosidade. &nbsp;Admiro muito artistas que n\u00e3o recorrem ao virtuosismo t\u00e9cnico e conseguem fazer trabalhos consistentes. N\u00e3o sou dogm\u00e1tico da t\u00e9cnica, n\u00e3o \u00e9 isso. Os trabalhos saem assim. O que vou fazer? (risos) \u00c9 como os Jo\u00e3o-de-Barro: fazem a casa daquele jeito, pois \u00e9 uma express\u00e3o de sua vida. Ainda fa\u00e7o desse jeito e n\u00e3o acho problem\u00e1tico. Rende trabalhos interessantes, do meu ponto de vista. No mais, vejo a preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica como uma generosidade para quem n\u00e3o \u00e9 iniciado nas artes. Porque h\u00e1 um apelo visual, al\u00e9m de outras caracter\u00edsticas para se notar. Abro, assim, mais portas de entrada para que vai ganhando mais complexidade. Quase como servir um prato bem cheio. Fazer um bom e generoso prato de comida. Por exemplo: tem comidas boas com entrada, tem os pratos&#8230; e l\u00e1 vamos n\u00f3s com analogias gastron\u00f4micas! (risos) Enfim, vejo como uma forma de convidar pessoas n\u00e3o iniciadas, porque gosto de atingir diferentes p\u00fablicos. Alguns trabalhos s\u00e3o mais cifrados e outros n\u00e3o.<\/em><br><em>O trabalho da Bienal \u00e9 mais codificado e tudo bem ser assim, pois se encontra em contexto que favorece esse tipo de olhar. Tem mediadores, texto e um ambiente prop\u00edcio para isso. Por outro lado, <a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/2019\/02\/blog-post_17.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">quando coloco trabalhos na rua<\/a>, processo outros apelos, busco atrair de uma forma diferente. Imagino a passagem de transeuntes desavisados, pois n\u00e3o \u00e9 anunciado, est\u00e1 sem legenda e at\u00e9 mesmo assinatura. Com todas essas pr\u00e1ticas, observo os espa\u00e7os, essa coisa de entrar e sair de um espa\u00e7o. O que seria entrar em um espa\u00e7o? No meu entendimento, um lugar espec\u00edfico pode ser lido como uma atmosfera de c\u00f3digos: quem aqui frequenta? Quais costumes s\u00e3o movimentados? Quais s\u00edmbolos s\u00e3o comuns? Fazer essa leitura, observar os c\u00f3digos que regem um espa\u00e7o \u00e9 o que eu entendendo como uma entrada. Entrar em um espa\u00e7o \u00e9 ler seus c\u00f3digos internos para falar sua l\u00edngua com voz pr\u00f3pria, criar a pr\u00f3pria sa\u00edda. Todos meus trabalhos partem, ent\u00e3o, de uma entrada, de um entendimento do contexto onde se inserem para, a partir desses pr\u00f3prios atributos, produzir uma sa\u00edda criativa. Sair do c\u00f3digo atrav\u00e9s do c\u00f3digo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>&#8230; que \u00e9 uma entrada para outro lugar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8230; que, da\u00ed, \u00e9 uma entrada para outro lugar! A\u00ed \u00e9 que t\u00e1! &nbsp;A sa\u00edda nunca vai ser a \u00faltima sa\u00edda, entende? Nunca tem a \u00faltima sa\u00edda. Isso tamb\u00e9m \u00e9 bom para pensar o cotidiano, a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8230; \u00e9 bom at\u00e9 mesmo para se posicionar diante do cotidiano capitalista. Voc\u00ea tem que entender o cotidiano, ler os c\u00f3digos e, a partir deles, construir sua sa\u00edda para continuar vivendo. S\u00f3 que qualquer sa\u00edda, seja qual for o espa\u00e7o desde onde foi elaborada, ir\u00e1, cedo ou tarde, ser sobrecodificada. Assim que realizada, a sa\u00edda se tornar\u00e1 mais um c\u00f3digo interno ao espa\u00e7o. A\u00ed, voc\u00ea precisa criar outra sa\u00edda e outra e outra sucessivamente. &nbsp;Adoto esse princ\u00edpio de circuito, que entrela\u00e7a entradas e sa\u00eddas, como forma de pensar o fazer art\u00edstico e a vida pr\u00e1tica, entende? Acho que \u00e9 por isso que consigo encontrar diferentes p\u00fablicos, sabe? Ligando \u00e0 vontade de aprender novas processos, tem uma coisa de pensar e fazer ao mesmo tempo, o que tamb\u00e9m me leva a pensar na artesania da linguagem.<\/em><br><em>Minha m\u00e3e e familiares pr\u00f3ximos se dedicaram a vida toda a trabalhos artesanais \u2013 costura, tric\u00f4, croch\u00ea. Talvez seja por isso que eu tenha essa coisa de fazer com as m\u00e3os. (risos) Essa manufatura ainda \u00e9 muito presente. \u00c9 uma po\u00e9tica pensante e manual ao mesmo tempo, diferente do conceitualismo estadunidense dos anos 70, por exemplo. Claro que tem trabalhos em que alguma parte n\u00e3o fiz. Me refiro a dominar os processos de execu\u00e7\u00e3o ou de prototipagem. Mas n\u00e3o acho um problema terceirizar a feitura de certas etapas, n\u00e3o. At\u00e9 estou estudando construir m\u00e1quinas de desenho, al\u00e9m de aprender a usar impressoras 3d.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Thiele-Elissa-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3047\" srcset=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Thiele-Elissa-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Thiele-Elissa-300x200.jpg 300w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Thiele-Elissa-768x512.jpg 768w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Thiele-Elissa-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Thiele-Elissa-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Thiele-Elissa-272x182.jpg 272w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Criptocromo<\/em> &#8211; Obra exposta durante a 13\u00aa Bienal do Mercosul, 2022. Fotografia de Thi\u00e9le Elissa.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>S\u00f3 por curiosidade, esse trabalho da 13\u00aa Bienal do Mercosul, o Criptocromo. Da ideia inicial at\u00e9 a coisa pronta&#8230; qual o tempo, como \u00e9 que surgiu? Digamos assim, da ideia at\u00e9 a obra exposta.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A instala\u00e7\u00e3o <\/em>Criptocromo (A Cor Escondida)<em> veio de uma pergunta, quando comecei a fazer trabalhos que emitiam ondas invis\u00edveis e que atravessavam as paredes.&nbsp; Me perguntei: \u201cser\u00e1 que algum equipamento ou alguma criatura consegue visualizar esse fen\u00f4meno que o olho humano n\u00e3o enxerga\u201d? Ent\u00e3o, cheguei a um estudo dedicado \u00e0 prote\u00edna celular de nome criptocromo. Foi uma epifania encontrar essa refer\u00eancia. Foi em 2019, durante a pesquisa de doutorado. <a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/criptocromo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">J\u00e1 havia feito uma primeira vers\u00e3o desse trabalho<\/a>, que era praticamente um ready-made de um modelo cient\u00edfico. Peguei uma representa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e coloquei no contexto de arte. Adaptei esse esquema para a localidade de Porto Alegre, pois o conceito do trabalho \u00e9 simular como os p\u00e1ssaros enxergam o magnetismo terrestre, como eles se localizam visualmente em diferentes pontos da Terra. \u00c9 muito interessante pelo detalhe de que a solu\u00e7\u00e3o visual desse estudo cient\u00edfico remete a algumas formas que venho trabalhando h\u00e1 um tempo. Assim, tem uma boa semelhan\u00e7a, uma coincid\u00eancia, uma sorte. Por isso, gerou um efeito em mim, pois meu repert\u00f3rio visual poderia se expandir para outras maneiras de perceber o mundo. J\u00e1 o tinha mais ou menos resolvido como trabalho durante a tese, onde o fiz em uma escala menor e para outra localidade \u2013 eram fotografias de outro ponto da cidade.<\/em><br><em>Para a Bienal, propus uma sofistica\u00e7\u00e3o dessa proposta, junto de uma rigorosa revis\u00e3o cient\u00edfica. Sua escala aumentou, \u00e9 uma instala\u00e7\u00e3o grande. Agora, depois da mostra, a instala\u00e7\u00e3o foi doada ao acervo do MARGS (Museu de Artes do Rio Grande do Sul).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E quanto a produ\u00e7\u00e3o dele para a Bienal?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Estive atento durante toda a produ\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, foi tranquilo. Nossas produtoras foram incr\u00edveis &#8211; a Tais Cardoso e o Edu Mendon\u00e7a. Estiveram comigo em todo o processo. Os curadores tamb\u00e9m estiveram comigo durante a resid\u00eancia TRANSE, a dupla \u00cdo \u2013 a Laura Cattani e o Munir Klamt. Teve algum perrengue, mas nada demais. Foi emocionante em outro sentido, sem problemas. Depois de muito tempo aprendi&#8230; depois de algum tempo passando por perrengues pesados de produ\u00e7\u00e3o com outras realiza\u00e7\u00f5es, tenho algum traquejo com processos complexos. Aprendi a administrar o tempo e as etapas de produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do mais, quando tem profissionais de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 bem melhor, n\u00e9? Algumas partes desse trabalho eu mesmo fiz, pois n\u00e3o tinha ningu\u00e9m que sabia fazer. No caso, se tratava do dispositivo agregado no trabalho &#8211; o dispositivo sonoro. A instala\u00e7\u00e3o reproduz o canto de um p\u00e1ssaro a partir da vibra\u00e7\u00e3o eletromagn\u00e9tica do pr\u00f3prio papel da fotografia. \u00c9 um dispositivo que testei, j\u00e1 o tinha experimentado em outros trabalhos. Nessa ocasi\u00e3o, aprimorei seu sistema, testei em um laborat\u00f3rio de eletr\u00f4nica acompanhado de um t\u00e9cnico engenheiro eletricista. Meio que propus a instala\u00e7\u00e3o com o aparelho pronto.&nbsp; Desenhei suas pe\u00e7as, instalei tudo com as pr\u00f3prias m\u00e3os. \u00c9 a coisa do fa\u00e7a voc\u00ea mesmo, sabe? Isso tem uma mem\u00f3ria punk de coisas que fiz na vida, desde fanzines \u00e0 autogest\u00e3o de projetos culturais&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"744\" height=\"800\" src=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Elias-Maroso-003.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3018\" srcset=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Elias-Maroso-003.jpg 744w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Elias-Maroso-003-279x300.jpg 279w\" sizes=\"auto, (max-width: 744px) 100vw, 744px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>M\u00faltiplo SD<\/em>. Impress\u00e3o&nbsp;<em>off-set<\/em>&nbsp;sobre papel. Formato expositivo para&nbsp;artistas convidados. Dimens\u00f5es de 10 cm x 5 cm x 2,5 cm. Desde 2009.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pegando o gancho do \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d, desse hist\u00f3rico <em>punk.<\/em> Voltando l\u00e1 para o ano de 2009. A <\/strong><a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/sala-dobradica.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Sala Dobradi\u00e7a,<\/strong><\/a><strong> como se deu? Qual a motiva\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s? S\u00f3 para localizar, ela existiu em Santa Maira. Fala um pouquinho o que \u00e9, o que foi&#8230; ela n\u00e3o deixou de ser ainda, mas est\u00e1, digamos, no limbo, em suspens\u00e3o&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ela permanece em lat\u00eancia! (risos)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Lat\u00eancia! Agora sim! Era essa a palavra!!! (risos)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A Sala Dobradi\u00e7a foi um espa\u00e7o de arte que n\u00e3o possu\u00eda um espa\u00e7o f\u00edsico fixo. Ali que tamb\u00e9m come\u00e7ou a moldar muito a ideia de n\u00e3o estar em um lugar s\u00f3. <a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/2019\/01\/multiplo-sd.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O primeiro espa\u00e7o da Sala Dobradi\u00e7a foi seu pr\u00f3prio logo<\/a>, para ter uma no\u00e7\u00e3o. Seu logo \u00e9 um volume espacial aberto em que a gente convidava as pessoas a recortar, dobrar e colar. Convidava <\/em>a fazer voc\u00ea mesmo ou a fazer com a gente<em>, um espa\u00e7o da arte. Nisso, essa coisa do fa\u00e7a voc\u00ea mesmo est\u00e1 at\u00e9 hoje presente em minha pr\u00e1tica. Quase todos meus trabalhos s\u00e3o replic\u00e1veis, podem ser feitos em s\u00e9rie e tem c\u00f3digo aberto.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Inclusive o bloqueador de celulares&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Sim, o <a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/ok-cancel.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">bloqueador de celular<\/a>, <a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/fm-bug.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">r\u00e1dios transmissores<\/a>, todos eles podem ser replicados materialmente, pois t\u00eam uma formata\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos. Quer dizer, ent\u00e3o, que eles t\u00eam a pot\u00eancia de serem repetidos. Se um deles for ef\u00eamero ou at\u00e9 se quebrar, posso fazer de novo.&nbsp; N\u00e3o trabalho muito com essa ideia de unicidade que uma pintura pode ter pelo gestual, por exemplo; o gesto \u00fanico que n\u00e3o pode se repetir&#8230; ainda n\u00e3o tem muito disso. At\u00e9 nos meus desenhos mais gestuais, eu os transformo em ensaio gr\u00e1fico digital para serem replicados. &nbsp;N\u00e3o sei explicar direito o porqu\u00ea, mas tenho essa coisa de fazer trabalhos potencialmente \u201cn\u00e3o \u00fanicos\u201d, que podem ser multiplicados. A maioria deles s\u00e3o de c\u00f3digo aberto. A Sala Dobradi\u00e7a introduziu muitos desse pensamento. Come\u00e7amos em um por\u00e3o de casa noturna, min\u00fasculo e bem \u00famido \u2013 o Macondo Lugar de Santa Maria. Tanto que o nome Sala Dobradi\u00e7a veio porque t\u00ednhamos que baixar cabe\u00e7a para n\u00e3o bater numa viga do teto, de t\u00e3o pequeno que era o lugar. T\u00ednhamos que dobrar o corpo&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Era tu e a Alessandra&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Alessandra Giovanella, minha parceira das artes at\u00e9 hoje! A ideia da Sala Dobradi\u00e7a era ser um espa\u00e7o de arte que tinha ou tem \u2013 est\u00e1 em lat\u00eancia! (risos) \u2013 como problema o pr\u00f3prio espa\u00e7o da arte, essa era a quest\u00e3o. Pens\u00e1vamos diferentes formatos de exposi\u00e7\u00e3o e convid\u00e1vamos artistas para expor com a gente. Houve formatos de espa\u00e7o que at\u00e9 n\u00e3o possu\u00edam parede. A \u00faltima vers\u00e3o da Sala Dobradi\u00e7a foi quando criei um <a href=\"https:\/\/1.bp.blogspot.com\/-C8Wn58uSLpU\/XQSKVNdE4jI\/AAAAAAAAUQA\/umqvDtKLHmYisXS58LbmprwkuelDYiDxgCLcBGAs\/s1600\/Instagram18.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">r\u00e1dio transmissor que poderia ficar dentro dessa caixa<\/a> vermelha, desse pequeno volume espacial que \u00e9 o logo-m\u00faltiplo Sala Dobradi\u00e7a. Ent\u00e3o, o \u00faltimo trabalho da Sala Dobradi\u00e7a foi um radiotransmissor que entrava nessa caixa do \u201cfa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u201d, entendendo que a Dobradi\u00e7a \u00e9 mais uma inten\u00e7\u00e3o indisciplinada ou uma espacializa\u00e7\u00e3o, do que um lugar fixo. Assim, poderia ser ativada em qualquer circunst\u00e2ncia. Isso vincula um pensamento da atividade arte mais ligada a uma maneira de mexer com os c\u00f3digos de um determinado contexto do que entender a arte como uma \u00e1rea do conhecimento fechada em si mesma.<br>Al\u00e9m disso, tinha outra coisa: geralmente o p\u00fablico da arte contempor\u00e2nea est\u00e1 nos centros metropolitanos, nas capitais, ainda nesse pensamento centralizado, digamos assim. A Sala Dobradi\u00e7a \u00e9 uma iniciativa de arte no interior do RS. Isso muda bastante a abordagem com o p\u00fablico e a maneira de articular processos da arte contempor\u00e2nea.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"821\" src=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Instagram18-1024x821.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3020\" srcset=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Instagram18-1024x821.jpg 1024w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Instagram18-300x241.jpg 300w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Instagram18-768x616.jpg 768w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Instagram18.jpg 1417w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">\u00daltima vers\u00e3o da Sala Dobradi\u00e7a.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E estamos falando de Porto Alegre que \u00e9 uma capital perif\u00e9rica&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u00c9 uma capital perif\u00e9rica, mas, como posso dizer, discursivamente muitas produ\u00e7\u00f5es e espa\u00e7os tentam replicar centros mais influentes. Esse pensamento faz olhar mais para S\u00e3o Paulo do que multiplicar alternativas descentralizadas. Procura replicar conceitos j\u00e1 esquentados. Lembro que, certa vez, o argumento curatorial de uma exposi\u00e7\u00e3o aqui em Porto Alegre \u2013 n\u00e3o vou dizer qual (risos) \u2013 era porque em Nova Iorque e em Londres se discutia determinado assunto. Logo, para n\u00e3o estar \u201catrasada\u201d, Porto Alegre teria que discutido tamb\u00e9m, n\u00e9? (risos)<br>A Sala Dobradi\u00e7a lidava com um tipo de arte contempor\u00e2nea que n\u00e3o teria p\u00fablico familiarizado a receber arte contempor\u00e2nea do jeito que era difundido convencionalmente \u2013 o que foi uma liberta\u00e7\u00e3o. Tivemos que pensar a arte com pr\u00e1ticas ligadas ao cotidiano, que intervinham no cotidiano. Isso era mais uma pr\u00e1tica atuante na vida das pessoas e de consist\u00eancia na vida das pessoas, antes de ter qualquer compromisso ou prestar rever\u00eancias a uma hist\u00f3ria da arte contempor\u00e2nea. N\u00e3o quer\u00edamos catequizar o p\u00fablico de Santa Maria com a arte contempor\u00e2nea, entende? N\u00e3o era uma catequese, sabe? Pois tamb\u00e9m isso pode acontecer com espa\u00e7os independentes. Tem espa\u00e7os independentes que podem, conscientes ou n\u00e3o, entrar numa certa catequese da \u201carte mais atual\u201d, reproduzindo acriticamente o modelo cubo branco ocidentalizado, seu interesse mercadol\u00f3gico, por exemplo.<\/em><br><em>Pela Sala Dobradi\u00e7a, a gente n\u00e3o se entendia como institu\u00eddo, mas instituinte. No sentido de a gente instituir novos lugares para pensar arte e praticar arte. Us\u00e1vamos processos da arte contempor\u00e2nea como ferramentas, n\u00e3o como li\u00e7\u00f5es a serem ensinadas. Tivemos intersec\u00e7\u00f5es institucionais com a Bienal do Mercosul e outros eventos institucionalizados ou n\u00e3o. T\u00ednhamos conversas com espa\u00e7os institucionalizados e n\u00e3o institucionalizados, al\u00e9m de artistas com diferentes forma\u00e7\u00f5es e trabalhos. O interessante \u00e9 que ali tamb\u00e9m foi um aprendizado. A Sala Dobradi\u00e7a s\u00f3 atravessou uma institui\u00e7\u00e3o em determinados momentos. N\u00e3o foi engolida ou entendia sua inser\u00e7\u00e3o institucional como o \u00e1pice de uma vontade. Em um momento de suas a\u00e7\u00f5es, apenas. Se esteve dentro de aparelhos institucionais, se passou pelo ambiente institucionalizado, foi porque produzia coisas interessantes fora desses contextos. O fora absoluto n\u00e3o existe, \u00e9 necess\u00e1rio o dentro para que haja a pr\u00f3pria distin\u00e7\u00e3o. A Sala Dobradi\u00e7a esteve dentro de um ambiente institucionalizado, porque o que produzia fora era atraente; e, caso parasse de produzir coisas pulsantes fora do recorte institucional, poderia n\u00e3o ter mais essa interse\u00e7\u00e3o, essa entrada.<\/em><br><em>Observar isso foi muito interessante para pensar no meu fazer essa ideia de n\u00e3o estar em um lugar s\u00f3, da arte ser algo que dinamiza os c\u00f3digos dos espa\u00e7os, de uma arte n\u00e3o presa a uma \u00e1rea do conhecimento, n\u00e3o presa a uma linguagem s\u00f3 e que pode ser entendida de m\u00faltiplas maneiras, sem hierarquias entre elas. Enfim, tudo foi se construindo aos poucos. &nbsp;N\u00e3o li um monte de livros e tive ideias mirabolantes. Percebo hoje uma consist\u00eancia, n\u00e3o sei como ser\u00e1 daqui para frente. S\u00f3 que me baseio em uma consist\u00eancia pr\u00e1tica, sabe? Vem das observa\u00e7\u00f5es das coisas que vou fazendo, me abrindo tamb\u00e9m \u00e0s err\u00e2ncias, incertezas, novos desafios.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Na minha vis\u00e3o, a minha leitura tem muito a ver com o que est\u00e1s falando aqui e agora. Essa necessidade de fazer alguma coisa dentro de um cen\u00e1rio que disponibiliza recursos. Ent\u00e3o, vamos fazer para n\u00f3s mesmo! N\u00e3o \u00e9? O fa\u00e7a voc\u00ea mesmo, que \u00e9 um pouco do que estava acontecendo naquele per\u00edodo. Convers\u00e1vamos antes da entrevista sobre isso. Havia certa efervesc\u00eancia. N\u00e3o sei se gosto desse termo, mas acho que as coisas estavam acontecendo. Sempre lembro que Porto Alegre tinha lugares assim, S\u00e3o Paulo, Rio, Recife&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Existia um pensamento de que a arte n\u00e3o poderia estar totalmente concentrada em centros e espa\u00e7os de poder. Um pensamento que estava igualmente agitado dentro das pol\u00edticas p\u00fablicas, com editais e fomentos nacionais. O programa Pontos de Cultura era uma excelente novidade nesse sentido. Passava por um pensamento de que a cultura era produzida pelas pessoas, de que as pessoas j\u00e1 produziam espa\u00e7os \u2013 de artes visuais, teatros independentes, quadras de samba, ambientes virtuais, espa\u00e7os da cultura e arte ind\u00edgena. Enfim, diferentes formas de espa\u00e7o. A Sala Dobradi\u00e7a se animava por esse imagin\u00e1rio. Se colocava como um n\u00f3 de uma rede m\u00faltipla, com diferentes maneiras de se autogestar e que se preocupava em n\u00e3o replicar modelos hegemonizantes de arte e do espa\u00e7o da arte.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Da \u00e9poca, tanto que a Panorama Cr\u00edtico surgiu nesse per\u00edodo&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Percebo que esse imagin\u00e1rio, hoje, tem algumas reminisc\u00eancias. No entanto, h\u00e1 um recente enfoque aos pontos de poder simb\u00f3lico. &nbsp;N\u00e3o digo s\u00f3 geogr\u00e1ficos, mas aparelhos tradicionais ocidentalizados &#8211; o formato cubo branco, o grande teatro, o espa\u00e7o legislado, etc. Um enfoque que busca construir sua validade cultural ocupando esses espa\u00e7os de poder historicamente problem\u00e1ticos. Para entender melhor: \u00e9, sim, necess\u00e1rio frequent\u00e1-los! O problema est\u00e1 em coloca-los como \u00fanica sa\u00edda de legitima\u00e7\u00e3o. Existem outras poss\u00edveis. E, no fim das contas, nessa via \u00fanica, quem sai se fortalecendo \u00e9 a pr\u00f3pria l\u00f3gica centralizadora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Inclusive, uma coisa que \u00e9 poss\u00edvel de se observar de um tempo pra c\u00e1, s\u00f3 existem as institui\u00e7\u00f5es consolidadas no nosso cen\u00e1rio. Praticamente inexistem espa\u00e7os independentes em Porto Alegre&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A problem\u00e1tica \u00e9 a seguinte: acho que precisa existir inser\u00e7\u00e3o institucional. \u00c9 preciso ter produ\u00e7\u00f5es dentro desses espa\u00e7os, passando \u2013 vamos pensar assim \u2013 por ali. Mas que n\u00e3o fique somente ali ou que n\u00e3o tenha como objetivo criativo e primeiro s\u00f3 e somente s\u00f3 estar dentro. S\u00f3 passar por ali. \u00c0s vezes, voc\u00ea pode desejar estar dentro de um aparelho, mas o que vejo problem\u00e1tico \u00e9 que, naquele tempo \u2013 n\u00f3s estamos nost\u00e1lgicos desse tempo! (risos) \u2013 quando se estimula um espa\u00e7o de uma determinada cultura, esse lugar cultiva os pr\u00f3prios valores, a pr\u00f3pria legitima\u00e7\u00e3o do que \u00e9 arte, os pr\u00f3prios c\u00f3digos. Antes, existiam mais pol\u00edticas p\u00fablicas para incentivar a continuidade desses espa\u00e7os gestados com din\u00e2micas particulares, pr\u00f3prias. Existia, sim, algum controle estatal, de presta\u00e7\u00e3o de contas e tal. Mas, enfim, isso era a sa\u00edda, antes de ser uma liberdade. N\u00e3o \u00e9 a liberdade, mas \u00e9 uma sa\u00edda!<br>O que percebo&#8230; para voc\u00ea entrar num aparelho de poder j\u00e1 consolidado, institu\u00eddo, historicamente constitu\u00eddo dentro de uma vis\u00e3o ocidental de sociedade, voc\u00ea precisa se adequar ao que esse contexto entende como arte. Um museu nesses moldes pode experimentar abordagens ou expografias diferentes, mas sua conven\u00e7\u00e3o de cubo branco \u00e9 estar diante de s\u00edmbolos expostos, comtemplando. A coisa da contempla\u00e7\u00e3o vem de onde? A gente pode at\u00e9 tra\u00e7ar paralelos com contempla\u00e7\u00e3o a religiosa, na tradi\u00e7\u00e3o mon\u00e1stica cat\u00f3lica. Quem praticava formas de devo\u00e7\u00e3o no claustro, enclausurado, praticava a chamada devo\u00e7\u00e3o contemplativa. Quem n\u00e3o se enclausurava, exercia a devo\u00e7\u00e3o ativa. Essa contempla\u00e7\u00e3o se liga ao enclausuramento, \u00e0 disciplina do corpo em detrimento da atividade mental. Podemos fazer algum paralelo ao cubo branco que, em situa\u00e7\u00f5es convencionais de temperatura e de press\u00e3o, tende ao contemplativo. Sem falar que determina um recorte disciplinar do que \u00e9 e do que n\u00e3o \u00e9 resultado do fazer art\u00edstico.<br>Essa forma de experi\u00eancia art\u00edstica \u00e9 v\u00e1lida e potente, com certeza. N\u00e3o deixo de passar por esse formato de espa\u00e7o \u2013 ainda vejo necessidade. No entanto, \u00e9 completamente diferente de um clube de arte negra, completamente diferente de uma escola de samba, por exemplo. Penso que a gente n\u00e3o pode esquecer outros lugares que genealogicamente s\u00e3o diferentes dos modelos ocidentalizados. \u00c9 curioso que se fala em decoloniza\u00e7\u00e3o do museu. Uma pergunta sempre oportuna \u00e9 a seguinte: ser\u00e1 que a decoloniza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o passa por come\u00e7ar a estimular pontos da arte e da cultura que n\u00e3o s\u00e3o historicamente coloniais? Jogo essa problem\u00e1tica!<br>A Sala Dobradi\u00e7a estava nesse caldeir\u00e3o.&nbsp; Entendo que muitas produ\u00e7\u00f5es de hoje acabaram se encastelando em aparelhos institu\u00eddos para se conservar diante do que acontece com a cultura. Por outro lado, esse movimento tamb\u00e9m pode estar ligado \u00e0 ideologia neoliberal, dentro da premissa que n\u00e3o existiria alternativa aos aparelhos de controle e \u00e0 l\u00f3gica capitalista da sociedade hoje. Esse imagin\u00e1rio diz que, para uma arte ser legitimada como tal, precisa desses aparelhos e ter uma circula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica espec\u00edfica, na forma de produtos etc.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Aproveitando esse teu pensamento, tudo isso que conversamos at\u00e9 agora. Fala um pouco da quest\u00e3o do artista como trabalhador precarizado e a quest\u00e3o do cinismo. Pelo que li, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/blog.html\" target=\"_blank\">nos textos em seu site<\/a>, me parece que existe uma coisa ligada \u00e0 outra nessa quest\u00e3o do trabalho precarizado do artista. Me parece, por vezes, que os artistas deveriam ter um uma maior consci\u00eancia pol\u00edtica dos pap\u00e9is. N\u00e3o que v\u00e1 mudar o mundo, mas se enxergarem como agentes dentro de um campo e dentro de um sistema socioecon\u00f4mico. Sei que talvez teus textos tenham sido um desabafo, de certa forma&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o, n\u00e3o foi um desabafo. Na verdade, \u00e9 uma chamada para os colegas artistas, para de algum modo, come\u00e7arem a observar de outra maneira o que pode ser nossa atua\u00e7\u00e3o na forma de um trabalho da vida pr\u00e1tica. Isso tem um caminho at\u00e9 mesmo subjetivo a ser percorrido, no meu ponto de vista, para que voc\u00ea realmente comece a ver como um trabalho como outros do cotidiano. Uma vez que dentro da institui\u00e7\u00e3o, isso ainda pode ser mudado, principalmente na universidade p\u00fablica, que \u00e9 um lugar a ser transformado e est\u00e1 sendo transformado sempre &#8211; para bem ou para mal, ali\u00e1s.<\/em><br><em>Somos educados a nos pensar como artistas aristocratas. E o que isso significa? Significa seguir uma ideia de artista que n\u00e3o precisaria se preocupar com a vida pr\u00e1tica. H\u00e1 tamb\u00e9m um princ\u00edpio que acaba negativando o trabalho do artista, tendendo \u00e0 sua anula\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m, falo de uma consci\u00eancia de classe, tanto art\u00edstica quando de posi\u00e7\u00e3o social. Se a gente for analisar quem teve destaque na hist\u00f3ria da arte, muitos artistas \u2013 para n\u00e3o dizer a maioria \u2013 vieram de uma situa\u00e7\u00e3o muito privilegiada social e economicamente. H\u00e1 pouco tempo, com algum humor, chamamos esse perfil de \u201cartista herdeiro\u201d. Sem contar que majoritariamente esse ensino segue influ\u00eancia ocidentalizada, de g\u00eanero masculino e branco. Agora, parece que est\u00e3o sendo levantadas essas quest\u00f5es \u2013 o que \u00e9 excelente! Estamos come\u00e7ando a ler o contexto art\u00edstico e a atua\u00e7\u00e3o art\u00edstica para al\u00e9m dos objetos expostos. \u00c9 poss\u00edvel ver que grande parte dos artistas em atividade, nesse recorte da arte contempor\u00e2nea, na verdade tem alguma seguran\u00e7a econ\u00f4mica na vida pr\u00e1tica. Ent\u00e3o, essas minhas posi\u00e7\u00f5es sobre o artista precarizado \u00e9 tanto para as pessoas&#8230; tem v\u00e1rias chamadas a\u00ed.<br>Uma \u00e9 para quebrar a l\u00f3gica de meritocracia. Por muito tempo, achava que n\u00e3o conseguia abrir caminhos apenas porque meu fazer art\u00edstico n\u00e3o tinha atingido sua excel\u00eancia. Poderia n\u00e3o estar maduro, mas n\u00e3o era esse recorte. Isso n\u00e3o quer dizer que a gente n\u00e3o deve se dedicar ao fazer, mas, \u00e0s vezes, conseguir um lugar no contexto art\u00edstico tem a ver com uma rede de contatos ou com certa consci\u00eancia de classe da pr\u00f3pria burguesia. &nbsp;At\u00e9 uso o termo burguesia, pois acho que \u00e9 mais f\u00e1cil de entender a ideia. Pode ser, hoje, um termo um pouco empoeirado, s\u00f3 que facilita o entendimento. Logo, tem a ver com a ideia de consci\u00eancia de classe. Quando me entendo como um artista trabalhador, quando quero produzir arte, n\u00e3o consigo ser c\u00ednico com o que fa\u00e7o, pois \u00e9 uma escolha \u201ccontracorrente\u201d. \u00c9 contra intuitiva no mundo capitalista e vindo da classe trabalhadora precarizada. Essa atua\u00e7\u00e3o precisa ser desejada sem cinismo para ser levada em frente. Por isso, entendo a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 arte como uma posi\u00e7\u00e3o vital, uma afirma\u00e7\u00e3o de vida, apesar da precariza\u00e7\u00e3o. Por isso que n\u00e3o entendo arte como uma disciplina e, sim, como uma maneira de viver, al\u00e9m de mexer com os c\u00f3digos da vida pr\u00e1tica. &nbsp;Eu preciso ter essa vis\u00e3o positivada do fazer art\u00edstico e da arte em si. Preciso me envolver com uma defini\u00e7\u00e3o positivada da arte para continuar trabalhando, pois \u00e9 muito dif\u00edcil se manter com esse trabalho, se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 \u201cherdeiro\u201d. De outra forma, sendo c\u00ednico e negativando o pr\u00f3prio fazer que dedico a vida inteira, n\u00e3o teria nem raz\u00e3o para isso ser feito.<br>Assim, vejo o trabalho de um artista precarizado que persiste, um trabalhador artista precarizado, ele comumente n\u00e3o v\u00ea sua persist\u00eancia com cinismo. E o que seria o cinismo? \u00c9 dizer que t\u00e1 tudo tomado, que n\u00e3o adianta ou que a arte \u00e9 t\u00e3o somente um arauto do mercado, um conceito do ocidente a ser extinto, que n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura vigente, aos aparelhos institu\u00eddos. N\u00e3o quero salvar ou destruir essa ideia de arte que me leva a produzir o que fa\u00e7o. N\u00f3s praticamos diversos conceitos problem\u00e1ticos em sociedade. Por isso o movimento \u00e9 sair da arte atrav\u00e9s da arte. Entrar em seus c\u00f3digos internos para criar sa\u00eddas vitais de linguagem. Isso pode ser praticado em outros campos, inclusive.<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/15-tb-para-catalogo-NOVA-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3024\" srcset=\"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/15-tb-para-catalogo-NOVA-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/15-tb-para-catalogo-NOVA-300x300.jpg 300w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/15-tb-para-catalogo-NOVA-150x150.jpg 150w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/15-tb-para-catalogo-NOVA-768x768.jpg 768w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/15-tb-para-catalogo-NOVA-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/15-tb-para-catalogo-NOVA.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Ok\/Cancel &#8211; Circuito Bloqueador de Celular<\/em>. Placa de Circuito Impresso (PCI) e v\u00eddeo-tutorial online. Dimens\u00f5es da placa: 10 cm x 10 cm. Dura\u00e7\u00e3o do V\u00eddeo: 5min52s.&nbsp;Ano de 2020.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Cair no lugar comum.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Cair no lugar comum e num lugar c\u00ednico. Qual \u00e9 esse lugar c\u00ednico? \u00c9 de voc\u00ea constatar que est\u00e1 tudo ruim e cinicamente continuar ali. Cinicamente aceitar os mesmos lugares e n\u00e3o atuar de maneira t\u00e1tica T\u00e1tico em que sentido? No sentido de que, de repente, \u201ctenho que passar por lugares institucionalizados para, depois, quem sabe, conseguir movimentar pr\u00e1ticas por conta pr\u00f3pria\u201d. O que est\u00e1 acontecendo agora, de haver algumas institui\u00e7\u00f5es que est\u00e3o olhando para o meu trabalho, \u00e9 curioso. Muitos deles s\u00e3o pol\u00edticos, como <a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/ok-cancel.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">bloqueador de celular<\/a>, os <a href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/infinito-fm.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">transmissores de r\u00e1dio<\/a>. Poder\u00edamos pensar assim: \u201cvejam s\u00f3 a institui\u00e7\u00e3o engolindo um trabalho com vi\u00e9s pol\u00edtico!\u201d T\u00e1, mas o que ela n\u00e3o engole por completo \u00e9 a vontade de sempre produzir sa\u00eddas. A\u00ed \u00e9 que est\u00e1! \u00c9 a\u00ed que tenho que fazer uma outra sa\u00edda, depois das anteriores. A sa\u00edda que conseguir formular ficou para tr\u00e1s. \u00c9 sempre a pr\u00f3xima e sempre a pr\u00f3xima. O movimento pode ser o de passar pelos espa\u00e7os hegem\u00f4nicos e n\u00e3o perder de vista outros contextos de atua\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, n\u00e3o considerar um lugar mais importante que o outro. Todas as boas oportunidades que tive, alcancei sendo inteiro \u00e0s minhas ideias, antes desejar inser\u00e7\u00e3o em espa\u00e7os no circuito hegem\u00f4nico. Sem contar que fa\u00e7o trabalhos replic\u00e1veis, de c\u00f3digo aberto. Muitos trabalhos que qualquer pessoa pode replicar. O que acontece comigo hoje \u00e9 uma das possibilidades de inser\u00e7\u00e3o. No momento, s\u00e3o institui\u00e7\u00f5es cient\u00edfico-culturais que est\u00e3o absorvendo meu trabalho&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Adquirindo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Sim. Diferente disso s\u00e3o poucas cole\u00e7\u00f5es privadas. \u00c0s vezes, m\u00faltiplos&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Representa\u00e7\u00e3o de galeria ainda n\u00e3o tens?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Olha. Ainda comercializo por conta pr\u00f3pria. Acho que ainda \u00e9 \u2013 isso \u00e9 mundial, t\u00e1? N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 no Brasil \u2013 acho que ainda \u00e9 problem\u00e1tica a maneira como as galerias exploram o trabalho dos artistas. Digo que \u00e9 uma explora\u00e7\u00e3o do trabalho, pois h\u00e1 margens de lucro na comercializa\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 uma explora\u00e7\u00e3o sem atribui\u00e7\u00e3o moral, digamos. No entanto, a maneira como as galerias trabalham ainda \u00e9 problem\u00e1tica. Essa realidade s\u00f3 vai ser levantada e transformada de forma efetiva quando os artistas come\u00e7arem a se entender como trabalhadores, ao inv\u00e9s de salvadores do mundo ou agindo como aristocratas c\u00ednicos. Precisaria de mais mobiliza\u00e7\u00e3o coletiva. Como falei, percebo que somos indiretamente levados a ver nossa pr\u00e1tica descolada da remunera\u00e7\u00e3o, da vida cotidiana.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Talvez a chave de teus textos seja a quest\u00e3o da palavra trabalhador, o artista como trabalhador&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Trago a palavra trabalhador como uma forma de facilitar a leitura, pois considero que a pregui\u00e7a \u00e9 uma maneira de pensar al\u00e9m da produtividade. A ideia de trabalhar n\u00e3o se liga a um valor primordial em si. Se o fazer art\u00edstico \u00e9 um trabalho, n\u00e3o deixa de ser um trabalho estranho para a maneira como se entende a vida hoje \u2013 o que tem sua import\u00e2ncia. Partimos desse conceito aberto da arte para produzir inutilidades cruciais \u00e0 vida, digamos. Uso essa palavra para conversar com os termos que existem e n\u00e3o como um conceito em si mesmo, n\u00e3o \u00e9 isso. At\u00e9 porque n\u00e3o dogmatizo o trabalho em si. Como falei, considero que a pregui\u00e7a \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. O gesto de n\u00e3o dedicar energia \u00e0 produtividade alienada ou o gesto de n\u00e3o ser um bom trabalhador a quem explora, fazer o m\u00ednimo necess\u00e1rio&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Algo semelhante ao <em>quiet quitting<\/em>, termo muito utilizado atualmente? Que seria fazer suficiente, o necess\u00e1rio na sua fun\u00e7\u00e3o em uma empresa<\/strong>?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Isso, o suficiente. At\u00e9 porque hoje em dia a explora\u00e7\u00e3o do trabalho est\u00e1 impressionante. Existe umas coisas de ag\u00eancias, tem umas fun\u00e7\u00f5es de telemarketing remotos agora \u2013 home office, trabalho de casa \u2013 em que o trabalhador tem que instalar um aplicativo no computador para controlar quanto tempo fica na frente do computador durante seu expediente. Esse aplicativo cronometra at\u00e9 o tempo do banheiro. Ent\u00e3o, assim, a ideia do trabalho que digo \u00e9 pra conversar sim com essa realidade&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Justamente como provoca\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra trabalhador.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u00c9 para se contrapor a ideia de burgu\u00eas n\u00e9, ligar-se \u00e0 disputa de classe. Ainda que sejam termos empoeirados, eles s\u00e3o uma chave de leitura. Termos que servem, pelo menos, para destacar as diferen\u00e7as de classe social. Tem muitos artistas que entram na universidade p\u00fablica, s\u00e3o pobres e acham que o fazer deles n\u00e3o tem proje\u00e7\u00e3o necessariamente porque n\u00e3o s\u00e3o bons o suficiente. Tem tamb\u00e9m certo perfil que emula um cinismo aristocr\u00e1tico, muito comum das classes dominantes. Isso \u00e9 natural de artistas abastados, que n\u00e3o precisam pagar aluguel, pois vivem de renda, desfrutam de bons contatos comerciais por conta de seu c\u00edrculo social. E, assim: que sorte que a pessoa vive de renda, o problema n\u00e3o \u00e9 o indiv\u00edduo em si.<br>Voc\u00ea j\u00e1 pensou que interessante seria uma sociedade em que existisse um grupo de trabalhadores que produzissem arte e existisse um p\u00fablico que consumisse? N\u00e3o precisaria ser um mercado com pre\u00e7os elevados. Me refiro a um ambiente cultural que mobilizasse um p\u00fablico preocupado em adquirir arte como forma de incentivo a artista da classe trabalhadora; como manuten\u00e7\u00e3o desse fazer capitalisticamente bizarro. Acho muito maluco que consigo estar fazendo isso hoje ainda, sabe? N\u00e3o sei at\u00e9 quando. Acontece e \u00e9 doido, se pensar a realidade desde onde venho. Ao mesmo tempo, \u00e9 melhor viver assim, porque estou conseguindo, estou produzindo o que desejo e espero que muitas pessoas consigam.&nbsp; Cada uma ter\u00e1 de construir sua pr\u00f3pria sa\u00edda; ter\u00e1 que achar seu jeito de sair da arte atrav\u00e9s da arte. Mesmo assim, \u00e9 importante ver que \u00e9 poss\u00edvel, apesar dos pesares. Acho que, de algum modo, estou mostrando que \u00e9 poss\u00edvel isso acontecer. Por outro lado, \u00e9 um trabalho que exige uma dedica\u00e7\u00e3o estranha&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00c9 uma pregui\u00e7a dedicada, \u00e9 isso? (risos)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Sim! (risos) At\u00e9 para produzir, \u00e0s vezes, tu tens que se permitir o \u00f3cio, n\u00e9? \u00c9 dif\u00edcil se permitir ocioso, confesso. Tanto por uma condena\u00e7\u00e3o moral \u00e0 vadiagem quanto por quest\u00f5es da vida pr\u00e1tica. Para ter esse tempo, precisamos ter algumas economias guardadas ou renda fixa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pra encerrar ent\u00e3o, o que vem na sequ\u00eancia? Al\u00e9m da aquisi\u00e7\u00e3o pelo MARGS da obra Criptocromo&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Estou entrando no acervo do Centro de Arte, Ci\u00eancia e Tecnologia <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.portaldaindustria.com.br\/sesi\/sesi-lab\/\" target=\"_blank\">SESI Lab<\/a>, de Bras\u00edlia. \u00c9 um centro rec\u00e9m inaugurado muito interessante. Tem liga\u00e7\u00e3o com um museu de arte, ci\u00eancia tecnologia bem importante e de relev\u00e2ncia hist\u00f3rica, o <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.exploratorium.edu\/\" target=\"_blank\">Exploratorium<\/a>, de S\u00e3o Francisco, Estados Unidos. Entro no acervo a partir do trabalho <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.eliasmaroso.art.br\/p\/ok-cancel.html\" target=\"_blank\">Ok\/Cancel<\/a>. Teremos exposi\u00e7\u00f5es relacionadas a isso. Agora, exponho em Maring\u00e1 (PR) e, tamb\u00e9m, no ano que planejo outras mostras. Talvez, uma publica\u00e7\u00e3o de minha tese em formato de livro. A instala\u00e7\u00e3o <\/em>Criptocromo (A Cor Escondida)<em>, da Bienal do Mercosul, ser\u00e1 incorporada ao acervo do MARGS. Al\u00e9m disso, aguardo resposta de alguns editais p\u00fablicos. Mantenho essa rotina de envios. Bastante coisa em aberto.<br>Vamos ver o que acontece! A busca \u00e9 cont\u00ednua.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>por Alexandre Nicolodi.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Panorama Cr\u00edtico.<br \/>\nEm uma tarde escaldante e abafada do in\u00edcio de dezembro em Porto Alegre, me encontro com o artista visual Elias Maroso para uma agrad\u00e1vel conversa no Multicultura Caf\u00e9. Ap\u00f3s cerca de uma hora de bate papo informal resolvemos come\u00e7ar a registrar a conversa. Entre um caf\u00e9 e outro, uma \u00e1gua e outra, a conversa abordou quest\u00f5es sobre sistema das artes, a po\u00e9tica do atravessamento, algumas recorda\u00e7\u00f5es de outro momento das pol\u00edticas culturais no Brasil, anseios, angustias, carreira e at\u00e9 algumas refer\u00eancias ao Big Brother&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3205,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,10,6,13,5,47,11,36],"tags":[61,28,63,48],"class_list":["post-2987","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-arte","category-artistas","category-brasil","category-brasileira","category-contemporanea","category-edicao-03","category-entrevista","category-volume-02","tag-arte-contemporanea","tag-artes-visuais","tag-bienal-do-mercosul","tag-elias-maroso","post-with-thumbnail","post-with-thumbnail-large"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2987","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2987"}],"version-history":[{"count":52,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2987\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3203,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2987\/revisions\/3203"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3205"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2987"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2987"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/panoramacritico.com\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2987"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}